Em novo dia de protestos, Egito estende toque de recolher

Medida é anunciada pouco depois de gabinete de governo apresentar renúncia, número de mortes mais do que dobrou

iG São Paulo |

AP
Manifestante mostra foto do presidente Hosni Mubarak durante protesto no Cairo
O Exército do Egito anunciou neste sábado a extensão do toque de recolher vigente no país. A partir de agora a medida vale para o período entre 16h e 8h no horário local (12h e 4h de Brasília), um aumento de três horas em relação ao toque de recolher anunciado na sexta-feira.

As forças armadas do Egito alertaram que aqueles que violarem o toque de recolher estarão em perigo. Foi emitido um comunicado pedindo que as pessoas não façam saques e que não promovam o caos.

O número de mortes dobrou nos dois últimos dias. Autoridades do Ministério da Saúde do Egito afirmaram que os protestos realizados no país deixaram ao menos 11 mortes neste sábado e 62 na sexta-feira. Com isso, o total de vítimas fatais desde que as manifestações começaram passa para 80.

A extensão do toque de recolher foi anunciada logo após a renúncia do gabinete de governo do presidente Hosni Mubarak, apresentada formalmente no início da tarde. Os ministros atenderam a um pedido de Mubarak, que com a mudança tenta frear a onda de manifestações sem precedentes que começou na terça-feira.

Apesar da mudança de gabinete e do novo toque de recolher, milhares de manifestantes desafiam a medida e continuam nas ruas do centro do Cairo, no quinto dia consecutivo de protestos. Manifestações também acontecem em cidades como Suez e Alexandria, onde centenas pedem a renúncia de Mubarak.

No Cairo, tanques e veículos blindados estão nas ruas, principalmente em locais como a praça Tahrir, epicentro dos protestos de sexta-feira, quando o presidente convocou o Exército para conter a população - algo que não acontecia no país desde 1985.

Também neste sábado, os serviços de telefonia celular, bloqueados desde a véspera, foram retomados. A internet, porém, continua bloqueada, e o governo nega a acusação de que tenha interrompido o acesso à rede para evitar que novos protestos fossem convocados.

Novo governo

A chefe da Anistia Internacional, Salil Shetty, disse que a decisão de Mubarak de mudar o governo é "quase uma piada" e não vai conseguir freat os protestos. "As pessoas querem mudanças fundamentais e constitucionais", afirmou.

O grupo opositor egípcio Irmandade Muçulmana também afirmou que a medida anunciada pelo líder é "apenas um passo". "Há um conjunto de reivindicações, como a dissolução do Parlamento e eleições livres", afirmou o porta-voz do grupo, Walid Shalabi.

"A destituição do gabinete é só um passo. Desejamos um governo que tenha interesse em lançar as liberdades públicas, que resolva o problema do desemprego e que não trabalhe em benefício de um só grupo", ressaltou.

Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país. “Garanto que estou trabalhando pelo povo e proporcionando liberdade de expressão à medida que se respeita a lei”, disse. “Há uma linha tênue entre a liberdade e o caos”.

Estados Unidos

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conversou com Mubarak e pediu que ele respeite os direitos da população e evite o uso de violência contra manifestantes pacíficos.  "À medida que a situação continua a se desenrolar, nossa primeira preocupação é evitar ferimentos ou perda de vida. Então eu quero ser bem claro em pedir que as autoridades egípcias que evitem o uso de qualquer tipo de violência contra manifestantes pacíficos", disse Obama. "Ao mesmo tempo, aqueles que protestam nas ruas têm uma responsabilidade de expressar-se pacificamente. Violência e destruição não levarão às reformas que eles buscam."

O presidente americano disse que a população do Egito "tem direitos que são universais" e pediu a Mubarak que tome medidas concretas para avançar nos direitos do povo egípcio e implementar as reformas prometidas em seu pronunciamento. "Reprimir ideias nunca foi uma maneira bem-sucedida de fazê-las desaparecer."

Antes da manifestação de Obama, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, havia dito que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

Obama disse ainda que este momento de volatilidade deve ser transformado em um momento de oportunidade. O presidente citou a "parceria próxima" que os Estados Unidos mantém com o Egito. "Mas nós também deixamos claro que é necessário promover reformas políticas, sociais e econômicas."

As manifestações no Egito foram inspiradas pelos protestos populares na Tunísia que levaram à derrubada do presidente Zine el-Abidine Ben Ali, há duas semanas. A chamada "Revolução de Jasmim" começa a afetar regimes que estão no poder há décadas graças ao predomínio do medo, consideram analistas.

Depois de Túnis, "o assunto não é qual será o seguinte, mas sim qual (regime) se salvará", afirmou Amr Hamzawy, diretor de pesquisas da fundação Carnegie no Oriente, para quem as manifestações populares poderão atingir a maioria dos países árabes, exceto as monarquias petroleiras do Golfo.

"Trata-se de uma verdadeira tendência regional, no Egito, Argélia, Jordânia, Iêmen, onde os cidadãos saem às ruas para exigir seus direitos sociais, econômicos e políticos", disse o analista.

"É uma dinâmica desencadeada no mundo árabe", disse o universitário Bourhan Ghalioun, autor em 1977 de um "Manifesto para a democracia" no mundo árabe. "O que ocorreu em Túnis rompeu o costume do medo e mostrou que era possível - com uma velocidade surpreendente - derrubar um regime, com uma dificuldade menor do que a imaginada", afirmou Ghalioun, diretor do Centro de Estudos sobre o Oriente Contemporâneo (CEOC), em Paris.

Com BBC, AP, AFP e EFE

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