Em meio à tragédia, haitianos dão sinais de que a vida continua

PORTO PRÍNCIPE - Alguns dias após a tragédia que atingiu o Haiti, especialmente Porto Príncipe, a capital, as ruas começam a dar sinal de que a vida continua. Em alguns bairros atingidos pelo terremoto, corpos são queimados pelos próprios moradores, enquanto a menos de cem metros pequenos comércios se formam na calçada. Máscaras são comuns por causa do cheiro nauseante de morte em certos locais e do formol despejado por helicópteros para evitar infecções.

Vicente Seda, enviado especial a Porto Príncipe |


Vicente Seda
Frentista: Quero aparecer no Brasil

Frentista: Quero aparecer no Brasil

O Haiti a céu aberto, com a população na rua, receosa de dormir sob qualquer teto, recebe bem os brasileiros em meio ao caos e não são poucas as camisas com nome de Ronaldinho e outros craques. Um frentista do posto de gasolina de Jimani, cidade da República Dominicana que faz fronteira com o Haiti, pediu para posar para uma foto logo após abastecer uma ambulância. Quero aparecer no Brasil, disse, abrindo um sorriso raro na terra devastada pela natureza.

A maioria das escolas e igrejas ruíram. O abastecimento de água ainda é precário, mas a comunicação está em parte restabelecida. Os celulares funcionam normalmente. Muitos moradores que possuem alimentos armam pequenas barracas nas calçadas, onde se encontra de tudo: água, frutas, comidas feitas na hora, roupas, artigos como xampus e até gelo. Mas a dor ainda é evidente nos olhos de qualquer haitiano.

Vicente Seda
A cônsul Hidegard Cassis (à dir)
A cônsul Hidegard Cassis (à dir)
A cônsul honorária de Portugal, Hidegard Cassis, levou a reportagem do iG em carro blindado passando por alguns bairros adjacentes ao centro de Porto Príncipe, a área mais devastada.

Ela abriga no quintal de sua empresa em Petion-ville 20 pessoas, incluindo seus empregados e familiares que perderam as casas, para quem leva comida e água regularmente. Eles perderam as casas e os que não perderam têm medo de ficar sob os próprios tetos. É difícil comprar comida e água, além de financeiramente ser complicado para eles, disse Cassis.

Entrando no Haiti pelo bairro de Tabarre, os sinais de destruição não demoram a aparecer. A embaixada americana está intacta, mas em frente a ela uma grande loja de eletrodomésticos está no chão. Um motel próximo também veio abaixo.

Seguindo por este caminho para o bairro de Route de Fréres, um minimercado ruiu e é possível ver carros de clientes do estabelecimento soterrados nos escombros. Mais acima, na estrada Delmas, número 95, um dos maiores supermercados da cidade está totalmente destruído e até agora retiram pessoas do local, enquanto diversos aguardam sentados por notícias de familiares e amigos.

Vicente Seda
Haitianos improvisam campos de abrigo

Haitianos improvisam campos de abrigo

Duas praças públicas, antes pontos belos da cidade, tornaram-se campos de abrigo. As pessoas já conseguiram improvisar um local de banho no meio da rua. Próximo a Petion-ville, a caminho do centro de Porto Príncipe, a estrada de Canapevert é a imagem da desgraça de milhares de haitianos. As casas na encosta de um morro, sem qualquer organização, como as favelas cariocas, são agora um amontoado de ferragens e pedregulhos. A estrada foi interditada em certo ponto para retirada de corpos.

No quarto dia após o terremoto, a ministra de comunicações do Haiti, Marie Laurence Lassegue, começou a indicar pelo rádio informações vitais para o funcionamento da cidade, como número de telefone para os moradores solicitarem retirada de corpos e postos de fornecimento de alimentos e água.

Apesar de toda a desgraça e tristeza, porém, a alegria floresce aos poucos em sorrisos infantis, como no campo de futebol que virou abrigo para os haitianos. Crianças, em meio ao desespero dos pais, batiam bola como qualquer garoto brasileiro.

Repórter do iG mostra situação do Haiti; assista:

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