Em meio a tensão, oposição cancela protesto contra reeleição de Ahmadinejad

O candidato da oposição derrotado nas eleições presidenciais do Irã, Mir Hossein Mousavi, cancelou uma grande manifestação marcada para esta segunda-feira, em um momento de crescente tensão que se seguiu à votação de sexta-feira. O Ministério do Interior havia proibido a manifestação, uma marcha em protesto contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, dizendo que ela havia sido planejada por elementos de sedição.

BBC Brasil |

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    Mousavi, um moderado, apresentou uma queixa formal de fraude na votação e pediu a anulação dos resultados.

    Ahmadinejad disse que a votação foi justa e culpou a imprensa estrangeira pelos distúrbios.

    Dezenas de milhares de pessoas realizaram uma manifestação em Teerã no domingo para comemorar a vitória do presidente.

    'Morte ao ditador'

    Mousavi teria cancelado o protesto marcado para esta segunda-feira depois de ser alertado de que milícias pró-governo seriam equipadas com armas de fogo.

    No domingo, foram registrados em várias partes da capital iraniana choques entre a polícia e manifestantes contrários a Ahmadinejad, pelo segundo dia consecutivo.

    Policiais bateram em manifestantes com cassetetes e os dispersaram com motocicletas. Há notícia de que foram usadas bombas de gás lacrimogêneo contra manifestantes e da busca por militantes dentro das salas da Universidade de Teerã.

    De acordo com o correspondente da BBC, Jon Leyne, alguns moradores da capital subiram no telhado de suas casas tarde da noite e gritaram "morte ao ditador", repetindo uma cena ocorrida antes da Revolução Islâmica de 1979.

    Segundo Leyne, a propagação rápida dos protestos desafia não apenas o resultado da eleição e o presidente Ahmadinejad, mas também o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.

    Isso implica em um desafio a toda a base da República Islâmica, diz o correspondente da BBC em Teerã.

    Preocupação internacional

    O website de Mousavi divulgou uma declaração em que ele pede formalmente ao Conselho Guardião do Irã, que deve confirmar as apurações, para anular a votação.

    "Eu peço a você, nação iraniana, que continue os seus protestos em todo o país de uma maneira pacífica e legal", acrescentou.

    Um dos principais dissidentes do Irã, Ibrahim Yazdi, disse à BBC que existiram sinais claros de fraude - ao contrário do ocorrido em eleições anteriores, os resultados detalhados da votação estão sendo retidos.

    A comunidade internacional também expressou preocupação com a eleição iraniana.

    Em entrevista à rede de TV americana NBC neste domingo, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, disse que tinha dúvidas sobre os resultados da eleição.

    "Há uma série de questões sobre como esta eleição foi conduzida, mas vamos ver, estamos esperando para ver, ainda não temos fatos suficientes para fazer um julgamento", disse Biden.

    O assessor da Presidência do Brasil pra Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse no domingo em Genebra que o resultado do pleito no Irã foi um "sintoma de democracia". "Houve uma reação na sociedade muito grande. A eleição mesma foi um sintoma de vida democrática no país, debates, manifestações de rua, isso é ótimo. Isso é bom", afirmou.

    "Eu acho que o fundamental é isso, foi uma eleição na qual houve uma participação muito grande da sociedade. Veja bem, mais de 70% votaram, o que não era uma tradição", disse Garcia, que acompanha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma viagem a Genebra, na Suíça.

    "E, em segundo lugar, os debates, manifestações de rua dos que estavam inconformados. Isso é um bom sinal."
    O ministro do Exterior da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, disse que convocou o embaixador iraniano para explicar o ocorrido na eleição.

    "Há muitas notícias da ocorrência de fraude eleitoral", afirmou.

    O ministro do Exterior da França, Bernard Kouchner, disse: "Lamento que ao invés de abertura houve uma reação um tanto brutal."
    Ahmadinejad foi, contudo, cumprimentado pelos presidentes de Iraque, Afeganistão e Venezuela.

    Na manifestação de domingo, Ahmadinejad negou qualquer irregularidade e disse que o resultado da eleição foi "muito preciso".

    Os distúrbios no Irã começaram depois de um alto comparecimento às eleições de sexta-feira - estimado em 85%. Muitos partidários de Mousavi esperavam um resultado apertado.

    Mas o resultado oficial deu a Ahmadinejad uma vitória esmagadora, com uma parcela final de quase 63% dos votos, e foi rapidamente endossado pelo aiatolá Khamenei.

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