Em meio a tanques do Exército, centenas protestam no Cairo

Manifestações continuam pelo quinto dia consecutivo mesmo após presidente anunciar intenção de mudar governo

iG São Paulo |

Centenas de manifestantes continuam no centro do Cairo, capital do Egito, no quinto dia consecutivo de protestos no país. A manifestação contra o governo do presidente Hosni Mubarak acontece principalmente na praça Tahrir, epicentro dos protestos de sexta-feira, que está cercada por tanques das Forças Armadas.

Em meio aos protestos, os militares fecharam o acesso às pirâmides localizadas nos arredores do Cairo, consideradas as principais atrações turísticas do país.

Há informações de disparos e colunas de fumaça branca, de gás lacrimogêneo, podem ser vistas pela cidade, enquanto as forças de segurança tentam dispersar os manifestantes. Cairo é o principal foco das manifestações, que começaram na terça-feira e ganharam força na sexta, quando Mubarak colocou o Exército nas ruas para conter os protestos, algo que não acontecia no país desde 1985.

AFP
Manifestantes são vistos próximos a tanques do Exército no centro do Cairo (29/01)

Neste sábado, o centro do Cairo mostra sinais dos distúrbios da véspera. Na praça Abdel Menem Riad, dois micro-ônibus e uma caminhonete da Polícia estavam carbonizados.

Nos arredores do Museu Egípcio, que conserva as relíquias arqueológicas mais importantes do país, pelo menos meia dúzia de veículos, um tanque e uma viatura policial estavam queimados.

Outras regiões da cidade também mostravam sinais de violência, saques e incêndios, como a avenida Al Haram, que leva às pirâmides de Giza e que amanheceu cercada por militares e grupos de jovens.

Entre os estabelecimentos saqueados estão os cassinos Al Lail e El Andalus e o hotel Europa.

Além do Cairo, as cenas de violência e caos ocorreram em pelo menos outras nove cidades ou regiões do país. Em meio à violência, as autoridades das forças de segurança do Egito informaram que o opositor egípcio Mohamed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz em 2005 e ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), está sob prisão domiciliar. A polícia lhe informou que ele não pode deixar sua residência no Cairo depois de ter participado das manifestações.

Autoridades do Ministério da Saúde do Egito afirmaram neste sábado que os protestos realizados no país deixaram ao menos 38 mortos desde sexta-feira. Com isso, o total de vítimas fatais desde que as manifestações começaram passa para 45.

De acordo com as autoridades, que não quiseram ser identificadas, destas 38 novas mortes 12 foram registradas na capital, Cairo. Outras 12 aconteceram em Suez, oito em Alexandra, três em Port Said, duas em Mansura e uma em Gizé.

Neste sábado, o serviço de telefonia celular, que estava bloqueado desde a manhã de sexta-feira, começou a ser restabelecido. Ainda não se sabe se o acesso à internet, que também tinha sido bloqueado, já foi normalizado. O governo egípcio negou ter sido responsável pela interrupção dos serviços.

Novo governo

Neste sábado, a TV estatal do Egito afirmou que os ministros do país tinham apresentado sua renúncia, atendendo a um pedido do presidente Mubarak. No primeiro pronunciamento desde o início da onda de manifestações, Mubarak, anunciou na sexta-feira a dissolução do governo.

O líder deve nomear o novo gabinete ainda neste sábado. Em discurso transmitido pela TV estatal, Mubarak, que está no poder desde 1981, disse ainda que os protestos não estariam ocorrendo caso seu governo não tivesse introduzido liberdades civis e de imprensa no país.

O presidente, no entanto, não deu indicações de que ele próprio renunciaria ou deixaria o país. “Garanto que estou trabalhando pelo povo e proporcionando liberdade de expressão à medida que se respeita a lei”, disse. “Há uma linha tênue entre a liberdade e o caos”.

O discurso de Mubarak ocorreu enquanto milhares de manifestantes desafiavam um toque de recolher imposto no país nesta sexta-feira, apesar da presença de militares nas ruas.

Estados Unidos

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, conversou nesta sexta-feira com Hosni Mubarak, e pediu que ele respeite os direitos da população e evite o uso de violência contra manifestantes pacíficos. Obama disse ter conversado com Mubarak por cerca de meia hora, logo após o pronunciamento transmitido pela TV estatal do Egito, em que o líder egípcio anunciou a dissolução do governo.

"À medida que a situação continua a se desenrolar, nossa primeira preocupação é evitar ferimentos ou perda de vida. Então eu quero ser bem claro em pedir que as autoridades egípcias que evitem o uso de qualquer tipo de violência contra manifestantes pacíficos", disse Obama. "Ao mesmo tempo, aqueles que protestam nas ruas têm uma responsabilidade de expressar-se pacificamente. Violência e destruição não levarão às reformas que eles buscam."

O presidente americano disse que a população do Egito "tem direitos que são universais" e pediu a Mubarak que tome medidas concretas para avançar nos direitos do povo egípcio e implementar as reformas prometidas em seu pronunciamento. "Reprimir ideias nunca foi uma maneira bem-sucedida de fazê-las desaparecer."

Antes da manifestação de Obama, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, havia dito que os Estados Unidos poderão revisar sua ajuda ao Egito com base no desenrolar dos eventos nos próximos dias.

Obama disse ainda que este momento de volatilidade deve ser transformado em um momento de oportunidade. O presidente citou a "parceria próxima" que os Estados Unidos mantém com o Egito. "Mas nós também deixamos claro que é necessário promover reformas políticas, sociais e econômicas."

Mundo árabe

As manifestações no Egito foram inspiradas pelos protestos populares na Tunísia que levaram à derrubada do presidente Zine el-Abidine Ben Ali, há duas semanas.A chamada "Revolução de Jasmim" começa a afetar regimes que estão no poder há décadas graças ao predomínio do medo, consideram analistas.

Depois de Túnis, "o assunto não é qual será o seguinte, mas sim qual (regime) se salvará", afirmou Amr Hamzawy, diretor de pesquisas da fundação Carnegie no Oriente, para quem as manifestações populares poderão atingir a maioria dos países árabes, exceto as monarquias petroleiras do Golfo.

"Trata-se de uma verdadeira tendência regional, no Egito, Argélia, Jordânia, Iêmen, onde os cidadãos saem às ruas para exigir seus direitos sociais, econômicos e políticos", disse o analista.

"É uma dinâmica desencadeada no mundo árabe", disse o universitário Bourhan Ghalioun, autor em 1977 de um "Manifesto para a democracia" no mundo árabe. "O que ocorreu em Túnis rompeu o costume do medo e mostrou que era possível - com uma velocidade surpreendente - derrubar um regime, com uma dificuldade menor do que a imaginada", afirmou Ghalioun, diretor do Centro de Estudos sobre o Oriente Contemporâneo (CEOC), em Paris.

Com BBC, EFE, AP e AFP

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