Sob a sombra de um escândalo de corrupção, o primeiro-ministro irlandês, Bertie Ahern, anunciou nesta quarta-feira que renunciará ao cargo no dia 6 de maio, quase um ano depois de ter conquistado nas urnas um histórico terceiro mandato consecutivo.

"Cumprirei minhas obrigações até o próximo mês e depois de meu retorno dos Estados Unidos e da visita de Estado à Irlanda do primeiro-ministro japonês, tenho a intenção de entregar minha renúncia à presidente (Mary) McAleese, na terça-feira 6 de maio", declarou Ahern em uma entrevista coletiva.

O "Taoiseach" (primeiro-ministro em gaélico) afirmou, no entanto, que a decisão não está vinculada à investigação a que é submetido, sobre seu suposto envolvimento em um caso de corrupção urbanística nos anos 90.

"Eu quero que todo o mundo compreenda que jamais coloquei meus interesses pessoais à frente do bem público durante toda minha vida pública", disse o premier de 56 anos.

Depois do anúncio da renúncia, o primeiro-ministro britânico Gordon Brown e seu antecessor Tony Blair prestaram homenagens a Ahern, por sua contribuição ao processo de paz na Irlanda do Norte.

"Bertie Ahern é um homem de Estado extraordinário", declarou Brown, antes de saudar sua "contribuição histórica" para pacificar a Irlanda do Norte.

Blair, que negociou com Ahern o histórico acordo da Sexta-Feira Santa, que acabou com o sangrento conflito na Irlanda do Norte, também prestou tributo ao premier irlandês, a quem expressou sua "amizade e admiração".

Ahern, que depois de quase 11 anos no poder é um dos chefes de Governo há mais tempo à frente de um país na Europa, havia declarado durante a campanha de reeleição que este seria seu último mandato.

Porém, também havia assegurado que cumpriria o mandato, que só chegaria ao fim em 2012.

Ao lado dos colegas de gabinete, Ahern insistiu que a renúncia não tem nenhuma relação com o inquérito judicial aberto por um tribunal anticorrupção, ao qual foi convocado a depor, e rebateu mais uma vez as acusações sobre suas finanças pessoais.

"Eu sei no fundo de meu coração que não fiz nada errado e que não prejudiquei ninguém", completou.

Bertie Ahern é conhecido como "Taoiseach Teflon" por sua capacidade para sobreviver a crises que teriam acabado com as carreiras de políticos menos habilidosos.

Este político-chave nas negociações que resultaram no acordo de paz para a Irlanda do Norte foi reeleito em maio do ano passado para um terceiro mandato consecutivo, o que foi considerado por vários analistas o último exemplo de sua habilidade para evitar uma morte política que era considerada praticamente certa.

Porém, as acusações sobre suas finanças pessoais, que o acossaram durante a campanha para as eleições de 2007, continuaram aumentando desde então e são consideradas por alguns observadores o motivo de sua decisão de renunciar.

Um de seus mentores foi o falecido premier Charles Haughey, que caiu em desgraça depois de ter aceitado quantias milionárias de empresários, segundo quem Ahern era o "mais astuto, más desapiedado e mais obstinado de todos".

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