Em meio a incertezas, haitianos votam em 2º turno eleitoral

Retorno de ex-presidente eleva dúvidas após 1º turno fraudado, surto de cólera e esforços de reconstrução

BBC Brasil |

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Quatro milhões de haitianos estão sendo convocados neste domingo (20) a escolher o sucessor do atual presidente René Préval.

Culminando um processo eleitoral fora do comum, após meses de acontecimentos fora do comum para o país, o segundo turno das eleições haitianas opõe a esposa de um ex-presidente a um conhecido cantor de música pop.

O processo eleitoral teve todas as tramas e intrigas de uma telenovela, mas a ex-primeira-dama Mirlande Manigat e o cantor Michel Martelly representam papéis muito diferentes nela.

Manigat, 71, esposa do ex-presidente Leslie Manigat, é uma acadêmica com credenciais obtidas na universidade francesa de Sorbonne e uma política com considerável experiência.

Michel Martelly, 50, é mais conhecido pelos seus fãs pelo nome artístico de Sweet Micky, uma estrela da música dance haitiana, a kompa. Ao longo da campanha, os mesmos jovens que vão à loucura em seus shows demonstraram a paixão de igual intensidade em seus comícios.

"Não acho que qualquer dos candidatos tenham propostas concretas na realidade", disse Andrew Leak, da organização Haiti Support Group.

"A diferença entre Manigat e Martelly é que ela faz parte da classe política tradicional do Haiti, enquanto Martelly definitivamente não faz."

Coincidências
As políticas dos dois candidatos parecem, de fato, assemelhar-se mais que suas personalidades.

Ambos se comprometeram a aumentar o acesso à educação, melhorar a saúde pública, reorganizar o sector agrícola e criar empregos.

Tanto um quanto outro também prometem restaurar a ordem pública e dar os haitianos que vivem no exterior mais participação nos assuntos nacionais.

"Independente de quem vença resultado, não fará um pingo de diferença para 85% dos haitianos vivem na pobreza absoluta", afirmou Leak.

No fim das contas, ele diz, o governo haitiano simplesmente não tem dinheiro para implementar muitas das políticas defendidas pelos candidatos.

Os limitados recursos do país foram canalizados para o enorme esforço de reconstrução após o terremoto em janeiro de 2010, que reduziu a escombros a maior parte da capital, Porto Príncipe.

Logo após a tragédia, impôs-se um outro problema que requer urgência: o surto de cólera que começou no ano passado e ainda não está sob controle.

Fator Aristide
Para muitos, o único político capaz de representar os interesses dos pobres haitianos é Jean-Bertrand Aristide , primeiro presidente democraticamente eleito no país, em 1990.

Aristide, um ex-padre que abraçou a Teologia da Libertação nos anos 1980, governou poucos meses até ser deposto por um golpe militar e forçado a deixar o país.

Depois de sete anos em exílio na África do Sul, o ex-presidente desembarcou de volta no Haiti neste fim-de-semana e expressou preocupação pela exclusão de seu partido, o Famni Lavalas, da disputa.

A sigla foi excluída antes mesmo do primeiro turno eleitoral, em novembro, por um detalhe técnico: supostamente devido a erros técnicos na ficha de inscrição.

"Aristide ainda goza de amplo apoio popular entre as massas, especialmente nas favelas de Porto Príncipe. Seu retorno pode levar a manifestações, queixas de que ele não está na disputa e agitação civil suficiente para tirar as eleições do trilho", avaliou o historiador Philippe Girard, autor de diversos livros sobre o Haiti, incluindo um sobre a carreira de Aristide.

Essa foi a razão pela qual os Estados Unidos haviam pedido ao ex-presidente que regressasse ao Haiti depois destas eleições, indicando que a sua presença poderia "desestabilizar" o processo.

Ingerência
Não faltaram vozes considerando a posição dos EUA como uma interferência externa no processo democrático no Haiti.

Intelectuais, académicos e organizações assinaram no início deste mês uma carta aberta no jornal britânico The Guardian acusando as potências estrangeiras de botar o dedo indevidamente nas eleições.

Os autores da carta pediam ainda que a votação deste domingo fosse cancelada.

"Os haitianos se referem a esta eleição como uma 'seleção'", diz Leak. "Para eles, os candidatos que estão disputando o segundo turno foram escolhidos segundo turno de antemão pela comunidade internacional."

O primeiro turno foi amplamente denunciado com acusações de fraude. A ex-primeira dama Manigat terminou em primeiro lugar, seguida Jude Célestin, o candidato apoiado pelo atual presidente Préval. As autoridades haitianas haviam dito que Martelly terminou em terceiro na disputa.

Porém, observadores internacionais questionaram essa informação, e sustentaram que Martelly terminara em segundo lugar e o resultado oficial fora fraudado. O candidato da situação foi obrigado a se retirar do pleito.

"Uma transferência do poder tranquila para uma pessoa eleita seria a maior prioridade dos EUA", disse Philippe Girard.

Sendo a reconstrução do Haiti uma prioridade inevitável do novo governo, é necessário que o próximo presidente tenha um bom relacionamento com os doadores estrangeiros que estão pagando a conta, afirma o historiador.

Tantas variáveis apenas elevam as incertezas sobre o processo eleitoral haitiano.

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