Em meio a dúvidas, Richardson acena para as Américas

O hispânico Bill Richardson, que será o secretário de Comércio dos Estados Unidos no governo de Barack Obama, costuma inserir trechos em espanhol em seus discursos e afirmou, ao ser oficialmente indicado para o cargo nesta quarta-feira, que pretende fortalecer os laços com a América Latina e reforçar a importância de um hemisfério unido. Richardson, que é governador do Novo México, disse à BBC Brasil durante a campanha eleitoral que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria em Barack Obama um parceiro no que diz respeito a temas globais.

BBC Brasil |

E que o democrata, ao contrário de George W. Bush, não iria negligenciar a América Latina.

Mas a retórica amistosa para com os latino-americanos daquele que desempenhará a função de um embaixador dos interesses comerciais americanos no exterior poderá esbarrar em posturas protecionistas do Partido Democrata e do próprio Barack Obama.

''Não há dúvidas de que o Partido Democrata se tornou mais protecionista, algo que não era a realidade há 25 anos. E a crise financeira deve tornar isso ainda pior. O governo Bush vai deixar para a próxima administração déficits comerciais, o colapso financeiro e duas guerras'', afirma Riordan Roett, diretor do programa das Américas da Universidade Johns Hopkins, de Washington.

Riordan Roett também aponta para a crescente influência sobre os políticos democratas da Federação Americana do Trabalho - Congresso das Organizações Industriais (AFL- CIO, na sigla em inglês), a maior central sindical da América do Norte.

''É uma organização trabalhista muito protecionista, que acredita que empregos estão sendo perdidos devido à competição estrangeira e à terceirização de postos de trabalho para o exterior. Os democratas com maior influência em temas de comércio normalmente vêm de distritos em que as centrais sindicais são ricas e com grande poder de atrair votos.''
Perfil
Mas o analista acredita que o perfil de Richardson e seu histórico favorável à abertura comercial poderão auxiliar a América Latina.

Segundo Roett, o governador mostrou essa característica durante sua passagem pelo Congresso e como embaixador dos Estados Unidos na ONU, durante a gestão de Bill Clinton, na qual ele também atuou como secretário de Energia.

''Ele é um defensor do livre comércio e é pró-América Latina. É também alguém que fala a língua e conhece a região e que conta com experiência em negociação e em elaborar políticas de governo.''
Para o analista, Richardson ''será a única pessoa na administração Obama com conhecimento aprofundado da América Latina, algo quase que totalmente ausente da gestão Bush e, até certo ponto, ausente até da administração Clinton''.

Biocombustível
Mas o próprio histórico do presidente eleito dos Estados Unidos parece ir em sentido contrário às credenciais pró-livre comércio de Bill Richardson.

Barack Obama é natural de Illinois - o segundo maior produtor de etanol dos Estados Unidos - e é um defensor dos subsídios oferecidos à indústria americana de etanol e das barreiras impostas à entrada no mercado americano da versão brasileira do biocombustível, que enfrenta uma sobretaxa de US$ 0,54.

A esperança brasileira é que Obama, por repetidas vezes, defendeu durante a campanha a necessidade de os Estados Unidos se livrarem da dependência de combustíveis fósseis em até 80% até 2050.

A matriz americana de etanol, produzido a partir do milho, não seria suficiente para suprir essa demanda, o que poderia obrigar o país a se abrir para o biocombustível produzido a partir de cana-de-açúcar.

Quando disputou a primária presidencial do Partido Democrata, Richardson defendeu os incentivos oferecidos pelo governo americano ao etanol produzido no país, mas reconheceu que o etanol celulósico e à base de milho oferece riscos ambientais que precisam ser levados em conta.

Influência
O presidente eleito se referiu a Richardson como alguém que conta com ''estatura internacional'', ''profunda compreensão da economia'' e as credenciais necessárias para ser um ''dos mais importantes embaixadores da economia americana''.

Apesar do cacife de Richardson junto a seu futuro chefe, a pasta do Comércio é considerada secundária. Ela foi oferecida ao governador como um prêmio de consolação, visto que ele era cotado para ser secretário de Estado, posto que acabou nas mãos da senadora Hillary Clinton.

O esvaziamento da secretaria se deve à pulverização de funções que seriam originalmente da pasta do Comércio por diferentes setores da administração federal americana.

Atualmente, as negociações relativas à Rodada de Doha de liberalização do comércio, por exemplo, não passam pela secretaria e são quase que uma incumbência exclusiva da Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), cuja titular atualmente é a secretária Susan Schwab.

O nome do sucessor de Schwab ainda não foi anunciado por Barack Obama.

Riordan Roett acredita que as opiniões de Richardson poderão ter um peso nas decisões de Obama, dada a credibilidade do governador e o forte apoio que ele ofereceu ao democrata durante a disputa das primárias.

''Ele deverá ter uma influência maior do que a de titulares do Comércio que o precederam. E, ao menos com ele, a América Latina terá chances de expor sua visão, no que diz respeito a livre comércio.''

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