Em meio a divergências, Mercosul busca articulação

Ministros e presidentes dos bancos centrais do Mercado Comum do Sul (Mercosul) e dos países associados ao bloco deram início nesta segunda-feira, em uma reunião em Brasília, a um processo de articulação para enfrentar a crise financeira global. Depois de uma reunião de mais de três horas, realizada no Palácio do Itamaraty, os ministros e dirigentes divulgaram um documento com linhas gerais em que concordam com a necessidade de fortalecer a integração para minimizar os efeitos da crise na região.

BBC Brasil |

Segundo o ministro brasileiro de Relações Exteriores, Celso Amorim, essa foi uma reunião inicial, e agora os países continuarão a enviar suas propostas ao Brasil. Um novo encontro está marcado para 15 de dezembro.

"O fato de a região estar falando com uma única voz sobre a crise é extremamente importante", disse Amorim, ao afirmar que, em crises anteriores, não havia a preocupação de discutir ações em conjunto.

Os esforços para uma ação conjunta, porém, enfrentam dificuldades diante das divergências econômicas e políticas dos países da região, afirmaram analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Medidas recentes adotadas pela Argentina têm sido interpretadas como uma tentativa de aumentar o protecionismo.

Há duas semanas, o país anunciou o aumento do controle da entrada de cerca de 22 mil produtos estrangeiros no país, muitos deles produzidos no Brasil.

Na semana passada, a decisão da presidente Cristina Kirchner de enviar ao Congresso um projeto para reestatizar o sistema de previdência social também provocou reações negativas.

"Teve uma repercussão muito negativa. Coloca a Argentina em isolamento", disse à BBC Brasil o sócio-fundador da Prospectiva Consultoria, Roberto Teixeira da Costa.

Ação conjunta
Na reunião desta segunda-feira, porém, o tom foi de rejeição a medidas protecionistas e de salientar a importância de uma ação conjunta.

"Em geral, a reposta ao problema da crise não é protecionismo e sim mais integração", disse o ministro Celso Amorim.

Entre as medidas propostas no documento do encontro está a de "realizar um monitoramento dos possíveis impactos da crise, tanto nos mercados financeiros locais como nos níveis da produção e emprego".

Os países também "salientaram a necessidade de uma reforma profunda e abrangente da arquitetura financeira internacional e de estabelecer, no âmbito global, instrumentos que permitam respostas concretas, imediatas e mais adequadas à crise".

O documento também ressalta a importância de que os governos da região mantenham comunicação sobre as medidas tomadas.

O sistema de pagamentos em moeda local criado no Mercosul, já em operação entre Brasil e Argentina, "é um exemplo de medida representativa de aprofundamento da integração financeira regional", diz o documento.

Os representantes dos países do Mercosul também ressaltaram a necessidade de uma conclusão satisfatória para as negociações da Rodada Doha de liberalização do comércio mundial.

Além dos pontos incluídos no relatório final, durante a reunião foram feitas propostas mais específicas.

O ministro de Relações Exteriores do Chile, Alejandro Foxley, disse que seu país propôs um chamamento aos países do G8 para que aumentem seu aporte de capital em instituições de fomento ou em bancos regionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para que eles possam emprestar mais rápido e em maior volume, combatendo assim os efeitos da crise e evitando um retrocesso na luta contra pobreza.

Entraves
Apesar da disposição manifestada durante o encontro, analistas afirmam que os países podem enfrentar dificuldades em realizar uma ação conjunta contra a crise.

Segundo o embaixador José Botafogo Gonçalves, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), "não há uma tradição na América do Sul de tratamento conjunto de problemas econômicos internacionais".

"Cada país tem o histórico de resolver seus problemas sozinho", explica.

Segundo Botafogo, além das divergências na área econômica, há entraves de natureza política e ideológica.

"Alguns países têm visões totalmente contrárias as de outros", diz.

Mas, segundo ele, o fato de não haver um histórico de coordenação não quer dizer que isso seja impossível.

"A crise pode a ser oportunidade de colocar isso em ação", disse. "Vale o esforço."
A opinião de Botafogo é dividida com Roberto Teixeira da Costa, que afirma que a crise pode obrigar os países a terem mais entrosamento.

"Seria lamentável que, a exemplo de outras crises, cada um procurasse resolver os problemas a sua maneira", afirmou.

Ele disse ainda que o setor privado deveria ser convidado a participar das discussões sobre a turbulência econômica.

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