Em meio à crise, Evo nomeia novos ministros e ataca imprensa

Presidente da Bolívia é forçado a mudar governo após renúncias por violenta repressão de protesto indígena

iG São Paulo |

O presidente da Bolívia, Evo Morales, nomeou novos ministros na noite de terça-feira após renúncias por causa da violenta repressão de uma marcha indígena no fim de semana. Wilfredo Chávez substituirá Sacha Llorenti no Ministério do Interior, enquanto Rubén Saavreda ficará com o cargo de ministro da Defesa, antes ocupado por Cecília Chacón .

A repressão aos protestos indígenas contra a construção de uma estrada que tem recursos brasileiros também provocou a renúncia de um vice-ministro e de vários deputados governistas. Analistas avaliam que essa é a maior crise política do governo de Morales desde sua chegada ao poder, em 2006.

Reuters
Morales cumprimenta o novo ministro do Interior, Wilfredo Chávez, observado pelo novo ministro da Defesa, Ruben Saavedra (27/09)

Chávez é advogado, muito próximo a Morales, e ocupava o cargo de vice-ministro de Coordenação Governamental. Saavedra volta ao cargo que entregou em abril para assumir a Direção de Reivindicação Marítima, encarregada de processar o Chile em tribunais internacionais para exigir uma saída ao mar para a Bolívia.

Durante a cerimônia na qual anunciou os novos ministros, Morales lançou duros ataques contra a imprensa, que chamou de “sua maior oposição”. Ele acusou duas rádios e um jornal de difundir “mentiras e exageros” como a morte de vários índios durante a operação policial que reprimiu a marcha, no domingo.

“Quero saber onde estão os mortos”, desafiou Morales, convidando novamente organismos internacionais a investigar o caso. “Alguns meios de comunicação servem apenas para mentir, mentir e mentir”, acrescentou.

“Já disse isso e não tenho medo de repetir: a maior oposição a Evo Morales são os meios de comunicação. Vamos travar a batalha da verdade contra a falsidade”, afirmou.

Llorenti, um dos mais antigos colaboradores de Morales, justificou sua renúncia dizendo que não queria ser "usado" pela oposição conservadora para desgastar o governo. Sua saída vinha sendo exigida por vários setores que o consideravam responsável pela repressão.

Cecília renunciou na segunda-feira em protesto contra a intervenção policial na marcha. Ao menos outros três funcionários bolivianos de menor escalão também renunciaram por discordar da repressão. A reforma ministerial foi precedida por protestos antigovernamentais em vários pontos do país. Alunos da estatal Universidade San Andrés, a maior da Bolívia, paralisaram o centro de La Paz com uma manifestação de apoio aos indígenas, enquanto a Central Operária Boliviana (COB) convocou uma greve geral para quarta-feira.

Morales anunciou na segunda-feira a suspensão temporária da obra rodoviária, que está a cargo da empresa brasileira OAS. Agora, a construção será submetida a referendo nas regiões de Beni e Cochabamba, por onde passaria a estrada.

Nesta quarta-feira, o principal sindicato operário boliviano realizou um dia de protestos sociais em apoio aos indígenas do Amazonas. Milhares de integrantes de sindicatos afiliados à Central Operária Boliviana (COB) se concentraram para marchar até o centro das principais capitais. A COB convocou a paralisação e atos de protestos para exigir uma solução para o conflito dos indígenas amazônicos que são contrários à estrada.

BNDES

Um empréstimo de US$ 332 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) previsto para ser feito à construção ainda não foi efetuado. De acordo com o BNDES, nenhum desembolso visando a financiar importações de equipamentos e serviços brasileiros foi realizado até o momento.

O BNDES garantiu também que aguardará a decisão do governo da Bolívia sobre a continuidade ou não da construção da estrada. O financiamento foi aprovado no fim do ano passado e contratado no começo deste ano, e a obra teve início em junho.

Segundo o jornal boliviano La Razón, a Administradora Boliviana de Rodovias (ABC, sigla em espanhol) ainda não informou à OAS sobre a paralisação, informou Pablo Siles, representante da empresa.

Segundo Siles, os trabalhos nos dois trechos seguem enquanto não houver uma instrução que diga o contrário. "Estamos esperando um comunicado oficial da ABC para que também nos digam de forma direta e oficial" sobre o que fazer em relação a obra.

Com Reuters, EFE e AFP

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