Em Gaza, túneis são usados no contrabando de carros desmontados

Saud Abu Ramadan. Gaza, 19 set (EFE).- Os amigos de Salem Al Shaer não acreditam quando ele diz que seu carro novo chegou à Faixa de Gaza por um túnel entre o território palestino e o Egito, mas ele não está mentindo: o mercado de levar automóveis desmontados até o local ganha cada vez mais força.

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"Não estou mentindo, mas meus amigos riem quando digo isso. Meu BMW de última geração foi desmontado no Egito, enviado por partes por meio de um túnel, e montado novamente em Gaza", garante Sha'er, morador da cidade de Rafah, na fronteira com o país africano.

O homem de 36 anos explica que o processo começa com a compra do veículo no Egito por meio de amigos, que também se encarregam de "arranjar as coisas" para que a Polícia egípcia faça "vista grossa" e não impeça a passagem das peças.

"Uma vez que o negócio conta com o sinal verde de todos, o automóvel é desmontado em quatro partes principais: o motor e as rodas, o teto, a tapeçaria e os acessórios, e a carroceria", afirma o palestino, ao lembrar que essa etapa inicial dura cerca de quatro semanas.

Depois, chega a hora de transferir as quatro partes pelo túnel, o que normalmente é feito rapidamente, às vezes em questão de horas.

Mas a terceira e última fase, quando um mecânico de confiança deve remontar o veículo em Gaza, pode levar outras três ou quatro semanas, principalmente por causa da pintura, para que o modelo tenha exatamente a mesma cor de quando saiu da fábrica.

No caso de Sha'er, o resultado ficou bom. Seu automóvel prateado foi fruto de um trabalho minucioso.

Esse tipo de procedimento mostra como os mais de 1,5 milhão de habitantes da Faixa de Gaza foram obrigados a descobrir formas de furar o duro bloqueio mantido por Israel sobre o território há mais de dois anos.

O outro país que faz fronteira com a Faixa, o Egito, também aderiu ao bloqueio. Com isso, os palestinos de Gaza têm nos túneis clandestinos ligados à península egípcia do Sinai sua única via de comunicação com o exterior.

Apesar de o Exército israelense bombardear regularmente esses caminhos subterrâneos - abertos ao redor de Rafah, onde há centenas deles -, os túneis são o meio pelo qual a população de Gaza se abastece de todo tipo de produto.

No início, só os grupos armados os utilizavam para receber peças para a construção dos foguetes que lançam contra território israelense. Porém, com o endurecimento do bloqueio, o uso dos túneis se tornou questão de sobrevivência.

Atualmente, comida, combustível e remédios são os artigos que mais transitam pelos túneis, pelos quais também passam animais como vacas, ovelhas e cabras.

O que se descobriu há pouco tempo é que as passagens também servem para o envio de carros praticamente inteiros, algo que não parece estranho a Zaher Sallah, especialista em compra e venda de automóveis na cidade de Gaza.

"Em 2006, um anos antes de o Hamas tomar o controle político da Faixa e o bloqueio ficar mais duro, Gaza recebeu automóveis novos.

Por isso, em três anos, os preços dos carros usados dispararam", explica.

"Por exemplo, um Honda Civic do ano 2000 não deveria custar mais de US$ 12 mil, mas supera os US$ 18 mil" acrescenta Sallah, antes de explicar que "os preços dos usados previsivelmente cairão" caso o mercado de entrada de automóveis novos pelos túneis se consolide.

O que também é previsível, nesse caso, é a disparada no número de automóveis sem licença. O Governo do Hamas tem 55 mil veículos registrados, mas a quantidade que circula pela Faixa de Gaza é muito maior. EFE sar-amg/bba

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