Túneis cavados clandestinamente sob a fronteira da Faixa de Gaza oferecem uma maneira não-oficial de escapar do controle israelense e entrar e sair do território palestino. Nos 12 quilômetros que separam Gaza do Egito, uma rede amplamente conhecida ultrapassa a areia fina e é usada para contrabandear toda sorte de produtos, de cigarros a comida, e até armas.

Explorar este mundo escuro e desconhecido, ao qual cheguei após conhecer alguns dos homens que o constroem, é uma experiência desconcertante.

Partes de solo macio caem enquanto se engatinha sobre as mãos e os joelhos. Você começa a se perguntar quanto tempo tardará até tudo desmoronar.

Normalmente, na verdade, os túneis não desabam, apesar do fato de que muitos não possuem qualquer suporte no teto.

Em geral há muito ar, graças a aberturas cavadas na horizontal com tubos grossos a duras penas.

Combate
Israel se queixa de que o Egito não se esforça o suficiente para encontrar e destruir os túneis, mas os palestinos afirmam saber de casos em que os egípcios lançaram gases venenosos em túneis recém-descobertos - com resultados fatais.

Na semana passada, um túnel cedeu, provavelmente porque os egípcios injetaram água nele e o enfraqueceram. O corpo de um homem teve de ser retirado pelos pés 24 horas depois pelo parente de uma das diversas famílias que trabalham nos túneis.

"Construir (os túneis) é o pior trabalho do mundo", diz um homem de mãos calejadas que se apresenta como Abu Mutassem.

Encontrei-o diversas vezes nos últimos anos, incluindo três vezes dentro de um de seus túneis. Sempre diz que este será o último que construirá, que com eles já juntou dinheiro suficiente. Na realidade, Abu Mutassem segue cavando outro e outro túnel.

O dinheiro é bom: em determinado momento em 2006, cada grupo de quatro cavadores de túnel recebia mais de 100 libras esterlinas (cerca de R$ 350) para cada fuzil Kalashnikov contrabandeado do Egito a Gaza.

Recentemente, o fluxo de armas pequenas e balas pelos túneis tem sido tamanho que há oferta suficiente para quem quiser ter sua própria arma semi-automática e uma arma adicional carregada de munição.

Existem também túneis mais secretos, chamados de "militares", controlados pelas disciplinadas brigadas Izzeidien el Qassam, ligadas ao Hamas.

Ninguém sabe que tipo de armas passa por estes túneis. Israel acredita que elas incluem equipamentos explosivos e alguns dos últimos foguetes que podem alcançar Ashkelon, a cidade israelense mais próxima da fronteira.

Antes de retirar suas tropas da Faixa de Gaza, em 2005, o Exército israelense freqüentemente encontrava e explodia túneis. Moradores locais afirmam que agora existem literalmente centenas de túneis ao longo da fronteira.

Mártires
Os controladores dos túneis - localmente conhecidos como "cabeças de serpente" - estão voltando a fazer fortuna, especialmente em mercadorias que o bloqueio israelense e egípcio tornou escassas, como gasolina.

Os que morrem passam a ser vistos como mártires - ou Shaheeds -, mesmo que seu sacrifício não tenha sido em nome do Islã, e sim em nome do lucro.

A cultura dos túneis está tão entrincheirada em Rafah, ao sul da Faixa de Gaza, que o principal salão de barbeiros da cidade se chama Salão dos Shaheeds, e expõe em suas paredes e espelhos fotos de cavadores e controlados de túneis que morreram no trabalho.

Os Shaheeds crêem que têm pouco a temer das autoridades em Gaza, desde que elas também recebam seu quinhão dos lucros.

O boom é tamanho que hoje existem até linhas telefônicas ligando os dois lados do túnel, e muitos contam com ar condicionado, eletricidade, guinchos para transportar pessoas e mercadorias, e até aspiradores de pó para remover solo frouxo.

A indústria do contrabando sofreu no início deste ano quando tropas do Hamas derrubaram parte da fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza, e centenas de milhares de palestinos reabasteceram seus estoques de artigos básicos e de luxo em uma sanha consumista em direção ao Egito.

Agora o Egito fechou novamente a fronteira com a Faixa de Gaza. Sob o chão, os negócios seguem a todo vapor.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.