Em fórum regional, FHC compara crise atual à de 1929 e critica FMI e BM

Punta del Este (Uruguai), 25 nov (EFE).- O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou hoje, em uma palestra no Uruguai, a ausência do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BM) nos debates internacionais sobre a crise financeira internacional.

EFE |

Nesta terça-feira, empresários e ex-chefes de Estado e de Governo ibero-americanos se reuniram no balneário de Punta del Este para uma reunião da Fundação Círculo de Montevidéu, durante a qual disseram que a região tem experiência o suficiente para superar a atual tormenta econômica.

Além de FHC, estiveram presentes no encontro os ex-presidentes Ricardo Lagos (Chile) e Julio María Sanguinetti (Uruguai), o ex-chefe do Governo espanhol Felipe González (Espanha), o empresário mexicano Carlos Slim e o subdiretor-geral do Grupo Santander, José Juan Ruiz.

A crise internacional, seus efeitos na região e as formas de enfrentá-la sem causar graves danos às nações ibero-americanas acabaram virando o principal assunto da reunião, cujo tema era "Construindo Pontes II: Rumo a uma Nova Sociedade de Bem-estar".

A respeito do colapso da economia mundial, o ex-presidente brasileiro condenou o sumiço do FMI e do BM nos fóruns que debatem a situação de grande instabilidade e incerteza gerada pela crise.

"O FMI quase não falou, e o BM literalmente desapareceu", e isso aconteceu "porque quem fala e dá idéias deve respaldá-las com dinheiro", disse.

Prosseguindo em sua análise sobre o silêncio das duas organizações, FHC destacou que "tudo depende" do Federal Reserve (Fed, banco central americano).

"O Governo dos Estados Unidos está aplicando muito dinheiro para tentar superar a crise, oferecendo até mesmo US$ 30 milhões a países que sequer pediram ajuda, como Brasil e Coréia", destacou Fernando Henrique.

"Esta crise se parece com a de 1929, com seus efeitos nefastos entre 1930 e 1932, quando a economia se estagnou. Mas atualmente estão sendo feitos grandes esforços para que o mesmo não volte a acontecer", destacou o ex-presidente.

Segundo Fernando Henrique, o "novo" na atual crise é que "o mercado é tão forte que diminuiu a interferência dos Estados".

"Por isso mesmo, agora é mais difícil conseguir o modelo certo e o equilíbrio entre mercado e Estado", afirmou.

Já Juan Ruiz e Slim se referiram às crises passadas, que, segundo disseram, fortaleceram os países ibero-americanos.

"Conduzimos mais crises deste tipo que qualquer país do mundo", disse o executivo do Grupo Santander em sua apresentação.

Por sua vez, Slim afirmou que a crise financeira internacional "é forte, mas a América Latina e o Caribe estão bem preparados, com reservas, e firmes como para enfrentá-la".

Destoando um pouco de seus interlocutores, FHC ressaltou que, apesar da experiência acumulada, a América Latina e o Caribe "precisarão dos chineses, dos indianos e dos árabes" para superarem o colapso financeiro.

Também convidados darem seu ponto de vista, Felipe González e Lagos apostaram no esforço conjunto dos Governos e das empresas para encontrar saídas para a crise.

O ex-chefe do Governo espanhol reivindicou um diálogo "franco" e com "urgência" entre os setores privado e público, para que sejam "articulados pacotes de medidas comuns" e se possa sair desta perigosa situação, resultante, segundo disse, de muitos erros e do desprezo ao papel do Estado e dos Parlamentos.

"A política foi condenada como um estorvo, foi degradada. E agora o mercado estende sua mão invisível aos políticos, para que regulem o desequilíbrio", acrescentou González.

Lagos também defendeu a "confluência dos setores públicos e privados" como "única forma" de deixar a crise para trás.

Levantando outro ponto, Slim também considerou "fundamental" a recuperação da confiança entre os bancos e a retomada dos empréstimos entre eles, o que combateria os créditos especulativos e a criação desses "cassinos financeiros" em que algumas entidades se transformaram.

Segundo o empresário, "a América Latina e o Caribe não podem ficar dois meses de braços cruzados esperando que Barack Obama assuma como presidente dos Estados Unidos".

"Devemos atacar o problema sem perder tempo", afirmou Slim, para quem é fundamental que o crédito "flua" e impeça que a crise repercuta nas companhias e nas pessoas.

É preciso "socorrer os devedores, especialmente os que têm créditos hipotecários", com moratórias ou juros realistas, enquanto os Governos devem apoiar a pequena e a média empresa, acrescentou Slim. EFE mtc/sc

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