Por Andrew Cawthorne PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - Paredes em ruínas cobrem valiosas obras de arte haitianas. Há mortos em frente à entrada. A comida em breve irá acabar. Mas, surpreendentemente, o outrora elegante hotel Villa Créole, instalado em um morro com vegetação luxuriante num bairro de Porto Príncipe, continua funcionando depois do devastador terremoto de terça-feira.

Ele serve como hospital, na parte da frente, e permite que trabalhadores humanitários, jornalistas e outros acampem no terreno.

"Um hotel tem de ser como pai, mãe, tudo ao mesmo tempo", disse seu gerente-geral, o haitiano Frantz Rimpel, que começou ali lavando pratos há 42 anos.

Ele e outros funcionários do Villa Créole já conviveram com várias crises no miserável Haiti --queda de governos, furacões devastadores--, mas nada que se parecesse com isto.

"Quando (o presidente Jean-Bertrand) Aristide foi derrubado, em 2004, foi duro. Um jornalista italiano teve dor de dente, e quando o levei ao médico quase nos mataram em um bloqueio rodoviário", disse ele. "Mas este terremoto ofusca tudo. Estávamos totalmente despreparados."

A Cruz Vermelha local estima que entre 45 mil e 50 mil pessoas tenham morrido no tremor de magnitude 7,0, e que haja 3 milhões de feridos e desabrigados.

Como muitos edifícios do sofisticado bairro de Petionville, o hotel sofreu um forte abalo, inclusive em sua estrutura central. Belas pinturas e esculturas estão cobertas por poeira e tijolos.

Nenhum funcionário ficou ferido, mas a maioria perdeu parentes e amigos.

Nestes primeiros dias, o hotel simplesmente - e generosamente - deixou suas portas abertas, permitindo que trabalhadores humanitários estrangeiros, jornalistas e outros que não tivessem aonde ir entrassem gratuitamente. Um gerador manteve a energia, e o serviço de internet de vez em quando aparecia do nada.

Quando uma entidade humanitária começou a distribuir remédios e ataduras aos feridos, a notícia se espalhou, e logo multidões de haitianos começaram a se aglomerar na entrada do hotel. Alguns morreram, e seus corpos foram deixados no meio da rua.

Sobrecarregados pela dimensão dos ferimentos que chegam - cortes profundos, hemorragias internas, traumas e fraturas -, os funcionários das entidades Hope for Haiti e International Medical Corps, ambas instaladas no hotel, saíram na quinta-feira em busca de instalações onde possam realizar cirurgias.

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