Em dia simbólico e popular, Mujica assume poder no Uruguai

Raúl Cortés. Montevidéu, 1 mar (EFE).- O esquerdista José Mujica, um ex-guerrilheiro de 74 anos que passou 13 deles na prisão, assumiu hoje a Presidência do Uruguai em um dia de multidões nas ruas de Montevidéu e de gestos simbólicos, como a saudação que recebeu das Forças Armadas e da Polícia.

EFE |

Vencedor das eleições de 29 de novembro com a Frente Ampla, Mujica tomou posse em um emotivo ato no Palácio Legislativo, onde sua mulher, Lucía Topolansky, fez o seu juramento no cargo por ter sido a senadora mais votada no último pleito.

O novo presidente começou seu discurso com um "Querida Lucía", ao lado de seu vice-presidente, Danilo Astori, e dos legisladores de sua coalizão, que detém a maioria no Senado e na Câmara dos Deputados.

Compareceram ao ato "amigos latino-americanos" como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; os governantes da Venezuela, Hugo Chávez; do Paraguai, Fernando Lugo; da Bolívia, Evo Morales; da Colômbia, Álvaro Uribe; e do Equador, Rafael Correa.

Também estiveram presentes a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, e o príncipe Felipe de Borbón, herdeiro da Coroa espanhola.

Mujica se tornou hoje o segundo presidente de esquerda da história do Uruguai ao substituir Tabaré Vázquez, seu companheiro na Frente Ampla, e que horas depois lhe passaria a faixa presidencial na praça Independencia diante de uma multidão.

Além disso, Mujica toma posse exatamente 25 anos depois de Julio María Sanguinetti (1985-1990 e 1995-2000), o primeiro presidente eleito democraticamente após a ditadura militar que governou o Uruguai de 1973 a 1985.

Em seu discurso de posse, no qual pediu uma "pátria para todos e com todos", Mujica defendeu buscar a "concertação" com a oposição, os empresários e os sindicatos, acima do "conflito".

Vestido com um terno escuro, uma camisa branca e um lenço da mesma cor na lapela, uma indumentária pouco habitual, o ex-guerrilheiro prometeu gerar transformações por um prazo de "30 anos".

Mujica disse que as áreas prioritárias de seu Governo serão a infraestrutura, a cultura, a matriz energética e a segurança pública.

Outras de suas metas serão a reforma do Estado e a redução da pobreza.

Ao deixar o Parlamento, o novo presidente uruguaio foi até a praça Independencia no chamado "Pepemóvel" - em alusão ao seu apelido, "El Pepe" -, uma caminhonete descoberta movida a eletricidade e adaptada para a ocasião.

Milhares de uruguaios, a maioria com bandeiras com as cores vermelha, azul e branca da Frente Ampla, acompanharam a passagem do veículo presidencial.

No trajeto, Mujica desceu do "Pepemóvel" para saudar o povo, dando mais uma demonstração de seu desapego ao protocolo, o que tem lhe valido críticas de seus detratores, mas algo que analistas consideram como parte da razão de seu sucesso.

Ex-ministro de Pecuária, Agricultura e Pesca de Vázquez, Mujica é um homem de origem humilde, que vive com sua esposa em uma chácara em um bairro operário nos arredores de Montevidéu, onde cultivam flores e hortaliças.

Devido a sua militância guerrilheira nos anos 60 e 70, esteve preso durante 13 anos, a maior parte do tempo durante a ditadura militar, mas também durante Governos constitucionais em uma época de forte conflito social.

Após o restabelecimento da democracia, Mujica voltou à vida política pelas mãos do Movimento de Participação Popular, um dos 20 partidos que formam a Frente Ampla e atualmente o mais influente da coalizão.

A sombra de seu passado guerrilheiro voltou a pairar, no entanto, no ato de transmissão de comando realizado na praça Independencia.

Lá, os 13 ministros que designou, entre os quais há duas mulheres e dois ex-guerrilheiros, que também estiveram presos, assumiram seus cargos.

Depois, um Mujica de expressão séria recebeu a saudação das Forças Armadas e da Polícia, entre os aplausos da maioria do público e alguns gritos contra a instituição militar e os policiais por sua participação na repressão durante a ditadura.

Uma lembrança menor em um dia de festa que terminou com várias apresentações musicais no mesmo cenário, onde Mujica se uniu ao grupo Los Olimareños para cantar a canção folclórica "A Don José", dedicado ao herói da independência uruguaia José Gervasio Artigas.

EFE rac/bba

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