Carlos A. Moreno, COSTA DO SAUÍPE - Os presidentes dos países do Mercado Comum do Sul (Mercosul) concordaram hoje que é necessário fortalecer a integração regional para fazer frente à crise internacional, mas terminaram sua cúpula semestral sem assinar os principais acordos negociados nos últimos meses.


Os discursos a favor da integração, no entanto, não serviram para que os presidentes pusessem fim à Cúpula do Mercosul, na Costa do Sauípe (Bahia) com a assinatura de um acordo para eliminar a dupla Tarifa Externa Comum (AEC) e o Código Alfandegário do Mercosul, principais assuntos impulsionados durante a Presidência brasileira do bloco.

Entre os resultados anunciados se destacaram a criação de um Fundo de Garantias para as Micro, Pequenas e Médias Empresas do Mercosul, a assinatura de um acordo de preferências comerciais com os países do sul da África e a ampliação do acordo comercial do bloco com o Chile para incluir o setor de serviços.


Representantes dos países latinos se reuniram na Costa do Sauípe / AFP


O Brasil também apresentou como exemplo concreto da vontade de integração a decisão do Mercosul e da Venezuela de absorver as exportações que a Bolívia deixará de enviar para os EUA perante a decisão de Washington de suspender as preferências que concedia ao país andino, devido a sua falta de cooperação na luta contra o narcotráfico.

Esses acordos supriram em parte o fracasso nas negociações para eliminar a dupla tarifa principalmente pelas objeções do Paraguai, um país que diz não poder renunciar aos impostos que cobra sobre produtos de outras nações que ingressam em seu território procedentes de Brasil e Argentina.

"O Mercosul não funcionará seu pleno potencial enquanto os produtos não puderem circular livremente. Continuaremos trabalhando durante a Presidência paraguaia para tentar eliminar a dupla cobrança da tarifa", admitiu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante seu discurso na reunião.

O chefe de Estado paraguaio, Fernando Lugo, que recebeu a Presidência semestral do bloco, assegurou que a gestão de seu país à frente do Mercosul se caracterizará pelos esforços para promover uma integração mais equilibrada e com "cara humana".

Na cúpula desta terça-feira participaram, além de Lula e Lugo, os presidentes da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, e do Uruguai, Tabaré Vázquez, membros plenos do Mercosul.

Também estiveram presentes os presidentes do Chile, Michelle Bachelet; da Bolívia, Evo Morales; e do Equador, Rafael Correa, países associados ao Mercosul, assim como os vice-presidentes da Colômbia, Francisco Santos, e do Peru, Luis Giampietri.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, não chegou a tempo para a reunião do Mercosul , apesar de seu país estar à espera de se tornar membro pleno do bloco.

Entre os convidados estiveram os presidentes de Cuba, Raúl Castro; do México, Felipe Calderón; e do Panamá, Martín Torrijos.

Sem avanço nas negociações mais difíceis, os governantes preferiram aproveitar seus discursos para se referir aos desafios do Mercosul perante a atual crise internacional.

"Nossa resposta coletiva tem que dobrar a aposta em nosso bloco, em uma integração dirigida ao desenvolvimento e à superação das desigualdades regionais (...). O Mercosul não assistirá passivamente ao debate sobre a crise mundial", disse Lula.

Cristina também defendeu a revitalização do Mercosul para que seus membros possam se relacionar com outros mercados.

Para Correa, a resposta à crise tem que ser uma maior integração, mas traduzida em "fatos concretos", como a criação do Banco do Sul.


Lula se encontrou com Correa na Bahia / AP

Já o presidente cubano denunciou que a ordem econômica internacional "injusta e egoísta" é um obstáculo para a integração da América Latina, e assegurou que seu país acompanha "com justificável otimismo" o empenho dos países do Mercosul "a favor de sua integração".

O presidente mexicano foi quem mais insistiu em que a América Latina tem que combater a crise com uma maior integração e abertura comercial para atrair investimentos produtivos.

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