Elizabeth 2ª expressa 'profunda tristeza' em discurso na Irlanda

Monarca não chegou a se desculpar por ações das forças britânicas durante conflito passado entre vizinhos, mas falou em erros

iG São Paulo |

Em visita histórica de uma chefe de Estado britânica à Irlanda, a rainha Elizabeth 2ª fez um discurso durante um jantar na noite desta quarta-feira no qual expressou “profunda tristeza” a todos aqueles que sofreram em consequência das turbulentas relações entre Inglaterra e Irlanda no passado.

Elizabeth 2ª não chegou a pedir desculpas pelas ações das forças britânicas durante os conflitos entre os vizinhos, mas disse que, claramente, erros foram cometidos. “A todos aqueles que sofreram como uma consequência de nosso passado difícil eu exponho meus sinceros sentimentos e profunda tristeza”, disse a rainha em um jantar de chefes de Estado no Castelo de Dublin, sede do governo britânico durante a ocupação da Irlanda, no qual esteve com presidente irlandesa, Mary McAleese, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron. “Com o benefício do retrospecto histórico, nós podemos ver coisas que gostaríamos que tivessem sido feitas de modo diferente ou que não tivessem ocorrido”.

Os presentes no jantar da noite desta quarta-feira se surpreenderam quando a monarca iniciou seu discurso em galês, idioma nacional na Irlanda. No restante de sua fala, a rainha enfatizou os laços atuais entre Inglaterra e Irlanda após o acordo de paz de 1998 entre protestantes unionistas e os republicanos católicos na Irlanda do Norte. Após discursar, Elizabeth 2ª propôs um brinde ao povo irlandês. “Adoro esse tilintar de taças”, disse antes de beber champanhe.

O discurso, que pode ter decepcionado aqueles que esperavam um pedido de desculpas formal da monarca, marca os únicos comentários de Elizabeth 2ª durante sua visita de quatro dias à Irlanda.

Roteiro

Também nesta quarta-feira, no segundo dia de sua viagem histórica à Irlanda , a rainha visitou o estádio de esportes Croke Park em Dublin, onde forças britânicas deixaram 14 mortos durante um jogo de futebol galês há 91 anos, em 21 de novembro de 1920. O massacre, conhecido como primeiro "Domingo Sangrento", foi um dos eventos mais significativos da Guerra da Independência da Irlanda (1919-1921).

Em meio a fortíssimas medidas de segurança, a soberana chegou ao estádio com capacidade para 82,3 mil torcedores acompanhada pela presidente irlandesa e foi recebida pelo presidente da Associação Atlética Gaélica (GAA) - a proprietária do estádio -, Christy Cooney.

No campo, a rainha inspecionou um bastão de Hurling (jogo nacional irlandês de origem celta, semelhante ao hóquei) e conversou com jogadores do futebol gaélico, os dois esportes tradicionalmente irlandeses sob a tutela da GAA. Na sala de troféus, Elizabeth 2ª se reuniu com vários líderes da GAA, apesar de algum deles não assistirem ao encontro em protesto pela presença da soberana na Irlanda.

No Domingo Sangrento, forças paramilitares do Exército britânico entraram no campo e abriram fogo contra o público e os jogadores, deixando 14 mortos, incluindo três crianças, e dezenas de feridos. Esse massacre, um dos mais destacados da luta que levou à independencia da Irlanda, foi organizado em represália a uma operação do IRA (Exército Republicano Irlandês), que horas antes havia deixado 14 mortos entre as forças britânicas.

A presença de Elizabeth 2ª no estádio era um dos momentos de maior simbolismo da primeira visita de um monarca britânico à Irlanda desde a independência, considerada um passo importante para a reconciliação e a normalização das relações entre os dois países.

A rainha, que está acompanhada por seu marido, o duque de Edimburgo, iniciou o dia com uma visita ao da famosa cerveja preta Guinness, onde os dois se recusaram a experimentar a famosa bebida irlandesa.

Mais tarde, Elizabeth 2ª se reuniu com o primeiro-ministro Enda Kenny, que a acompanhou até o Memorial de Guerra Irlandês para depositar uma coroa de flores em homenagem aos 49,4 mil irlandeses mortos na 1ª Guerra Mundial (1914-1918).

Visita histórica

A visita da rainha Elizabeth 2ª à Irlanda é a primeira de um monarca da Inglaterra desde a independência irlandesa, há 90 anos. Ela é feita em meio ao maior dispositivo de segurança já montado no país, com mais de 10 mil policiais e soldados.

Antes de sua chegada, na terça-feira, membros do Exército irlandês desativaram uma bomba de fabricação caseira encontrada em um ônibus nos arredores de Dublin. Os dissidentes do IRA advertiram nos últimos dias de sua intenção de realizar atentados na República da Irlanda, na Irlanda do Norte e no Reino Unido durante a visita de Elizabeth 2ª.

O destaque do primeiro dia da visita da monarca ao país aconteceu quando ela depositou uma coroa de flores diante do monumento aos irlandeses que morreram pela independência. Durante a solene cerimônia celebrada no jardim da cêntrica Parnell Square, foram tocados os hinos nacionais e, em seguida, fez-se silêncio pelos irlandeses mortos.

*Com AP, EFE e AFP

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