Eleições criaram novo problema para a crise, diz Zelaya

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, disse, em entrevista à BBC Mundo, que as eleições de domingo que elegeram o candidato do Partido Nacional, Porfírio Pepe Lobo, criam um problema adicional na crise política de Honduras. Em uma conversa telefônica, Zelaya falou da embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde está refugiado desde 21 de setembro.

BBC Brasil |

Segundo ele, os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a participação dos eleitores são falsos e qualificou as eleições como "fraudulentas".

Zelaya disse que não reconhece a vitória de Lobo, mas assegurou que "está sempre disposto a dialogar", em referência à oferta que o presidente eleito fez na noite de domingo.

Apesar disso, o líder deposto ainda insistiu que não aceitará a restituição ao cargo, caso seja essa a decisão do Congresso nesta quarta-feira.

Leia abaixo a entrevista.

BBC Mundo - Você acredita que o resultado das eleições vai mudar a dinâmica da crise política hondurenha?

Zelaya - Vou fazer algumas reflexões. Nas eleições presidenciais, Lobo não se pronunciou sobre o golpe de Estado, tem medo dos militares, não fala disso. Não se pronuncia sobre os monopólios e oligopólios que existem no país, tem medo de enfrentar as forças econômicas de Honduras. Não fala sobre a liberdade de imprensa que existem no país, tem medo das grandes cadeias que cercam a informação em Honduras.

As eleições mudaram a cúpula militar que me deu um golpe de Estado? Segue a mesma. As eleições mudaram o corpo de magistrados da Suprema Corte que emitiu uma ordem de captura sem juízo? Segue a mesma Corte, segue o mesmo fiscal, a mesma diretiva do Congresso Nacional. O que as eleições mudaram? A única coisa que mudou é que fomos a um processo eleitoral onde o povo se manifestou contra a ditadura e estão manipulando a informação sobre isso também.

As eleições não mudaram nada, senão criaram um outro novo problema que é a fraude eleitoral comprovada. Houve uma fraude nos resultados que eles estão publicando. A votação diminuiu em 20% em relação ao que havia reduzido há quatro anos.

BBC Mundo - Mas o Tribunal Superior Eleitoral divulgou dados que indicam que a participação foi superior a 60%.

Zelaya - Que me digam onde aumentou. Estão mentindo.

BBC Mundo - O senhor está pensando em denunciar formalmente uma fraude eleitoral?

Zelaya - Essas demandas já foram apresentadas e vamos levá-las a todos os níveis. Eu sei que aqui em Honduras não há justiça, mas (as denúncias) serão levadas a comunidade internacional.

BBC Mundo - O fato é que o TSE e o seu Partido Liberal reconheceram a vitória de Lobo nas eleições. Lobo disse que estaria disposto a iniciar um diálogo nacional para solucionar a crise. O senhor estaria disposto a conversar com Lobo para buscar uma solução para o problema hondurenho?

Zelaya - Veja, sou um político e não conheço nenhum político que não dialogue. O problema dos políticos não é a sua disposição para dialogar, é sua disposição para resolver os problemas. A disposição para dialogar tem a ditadura (o governo de Roberto Micheletti). Vivem em um diálogo e não resolvem nada. Segue a representação contra o povo.

Eu estou disposto ao diálogo que seja sincero e que leve a buscar uma saída jurídica legal para a crise que vive Honduras.

BBC Mundo - Essa saída jurídica poderia acontecer nesta quarta-feira quando seu governo (Congresso) decidir sobre sua restituição à Presidência?

Zelaya - Nós acreditamos que essa sessão do Congresso é uma fraude, é uma impostura a mais. Não tem nenhum indício de legalidade. Acredito que os acordos que havíamos firmado se romperam.

O Congresso tem que responder pelos delitos de falsificar minha assinatura e criar um decreto para me destituir - algo que o Congresso não tem faculdade para fazer. Quando eles resolverem seus delitos poderão falar de acusações contra mim, que são acusações injustas porque eu nunca fui submetido a nenhum juízo para que seja destituído de forma violenta como fizeram os militares com o Congresso e a Suprema Corte de Justiça.

BBC Mundo - Quer dizer que qualquer coisa que aconteça na quarta-feira não terá sequer incidência na evolução da crise?

Zelaya - Não. Não aceito a restituição. Não aceito a restituição para legitimar uma fraude nem para legitimar ou anular o golpe de Estado.

BBC Mundo - Mas o relógio vai correndo contra o senhor e já em janeiro Lobo deveria assumir como novo presidente. Poderia se dizer que em janeiro sua causa já haveria vencido?

Zelaya - Nós estamos lutando pela transformação de Honduras e essa causa não termina nunca. Meu mandato presidencial termina em 27 de janeiro. Mas sou um político, me apresento ao povo e seguirei lutando a todo custo e a todo sacrifício. Não tenho trégua, nem tempo fixo para isso.

BBC Mundo - Sei que o senhor não reconhece os resultados eleitorais. Mas muitos interpretam que o resultado é uma derrota para o seu Partido Liberal, mas um triunfo para o senhor porque os resultados o ratificam como líder de um setor importante do Partido.

Zelaya - Quando eu estava exercendo a Presidência - eu sou presidente, mas não estou exercendo porque fui derrocado pelos militares. Quando eu estava exercendo, o candidato do Partido Liberal tinha 46 pontos e o candidatou que venceu agora tinha 24 pontos. Depois do golpe de Estado, o candidato liberal caiu para 24 e o candidato da oposição subiu para 48. O golpe foi como um autogolpe que seu deu Micheletti porque destruiu o candidato do Partido Liberal.

BBC Mundo - Até quando o senhor vai permanecer na Embaixada do Brasil? Que planos o senhor tem para seguir promovendo a sua causa?

Zelaya - Eu sou um homem de luta. Tenho 25 anos de luta e sigo em qualquer lugar em qualquer momento, em qualquer circunstância e se me toca estar aqui, estarei aqui. E se não, estarei lutando em qualquer lugar sempre pelo povo hondurenho. Estou defendendo uma causa que não tem fim.

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