Cabul, 24 jan (EFE).- A Comissão Eleitoral afegã anunciou hoje o adiamento de maio para setembro das eleições ao Parlamento do país, em plena campanha militar contra uma insurgência talibã ampliada por quase todo o território.

O porta-voz da Comissão, Noor Mohammed, e outros representantes do organismo anunciaram, em entrevista coletiva, que o pleito acontecerá em 18 de setembro, em vez de em 22 de maio, como estava previsto.

As razões alegadas foram "a falta de orçamento, as incertezas sobre a segurança, os desafios logísticos", assim como a necessidade de uma "melhora do processo eleitoral no país", nas palavras do oficial Fazil Ahmad Manawi.

Este pleito ocorre depois do realizado em 20 de agosto do ano passado para a Presidência, com vitória de Hamid Karzai para um segundo mandato.

A fraude generalizada nas presidenciais - cuja organização e segurança representaram um ingente esforço para a missão da ONU e as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - decepcionou os parceiros internacionais de Karzai.

O presidente renovou seu mandato em novembro, após a anulação de centenas de milhares de votos fraudulentos do primeiro turno em agosto e do cancelamento do segundo turno, devido à retirada do candidato opositor, Abdullah Abdullah.

O esgotamento representado por esse processo, após o qual a ONU retirou grande parte de seu pessoal no país, depois da morte de cinco deles em um atentado talibã, levou os Estados Unidos e o Reino Unido a pressionar discretamente pelo cancelamento das eleições de 2010.

A Administração americana anunciou um grande reforço - de 30 mil homens - para o Afeganistão, onde haverá 137 mil soldados estrangeiros diante da retomada das hostilidades, com a chegada da primavera (hemisfério norte).

O Parlamento, cuja legislatura termina em 2010, se envolveu em um insólito confronto com Karzai no processo para a formação do novo Governo.

Os deputados rejeitaram grande parte dos nomes das duas listas de ministros propostas desde meados de dezembro passado pelo presidente, antes de tirar férias até 20 de fevereiro.

Karzai terá que ir no próximo dia 28 à conferência sobre o Afeganistão, em Londres, com um Gabinete incompleto, no qual só há 14 de 25 membros confirmados pelo Parlamento e os outros são figuras interinas.

Em Londres, o presidente afegão deve pedir apoio diplomático e fundos para um plano de reconciliação, e ajuda para a reintegração dos talibãs que aceitarem a medida, uma iniciativa que conta com o beneplácito da Administração do presidente americano, Barack Obama.

O adiamento do pleito parlamentar permitirá que as forças da Otan concentrem seus esforços na campanha militar contra os talibãs que rejeitam a oferta de Karzai, que renovou mandato com a insurgência presente em 80% do território afegão.

No Afeganistão pós-talibãs, foram frequentes as mudanças de data nas sucessivas convocações eleitorais.

Algo parecido ocorreu no pleito legislativo de 2005, que estava originalmente previsto para acontecer entre abril e maio, e finalmente foi realizado em 18 de setembro daquele ano, após a alegação de "problemas técnicos" para respeitar o prazo original.

No rigoroso inverno afegão, diminui notavelmente a intensidade do conflito armado, mas as mortes de soldados e civis continuam cotidianas, como a de dois soldados americanos que morreram hoje devido à explosão de uma bomba improvisada no sul do país, informou a Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf), sob mandato da Otan, em comunicado.

Outra explosão, aparentemente causada por um suicida, causou ontem a morte de duas crianças e feriu dois civis nos arredores de um mercado no distrito de Khanshin, na província de Helmand, segundo a Isaf.

Um porta-voz talibã citado hoje pela agência afegã "AIP" disse que o alvo do suicida eram tropas da Otan, e que estas sofreram várias baixas, entre mortos e feridos.

Também em Helmand, no distrito de Sangin, a Isaf disse ter matado hoje a tiros um suposto talibã que estaria cavando com a aparente intenção de colocar uma bomba, e que não parou, apesar dos tiros de advertência dos soldados estrangeiros. EFE nh-ja/an

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