Eleição em 2011 deve encerrar sequência Kirchner

No poder desde 2003, casal presidencial argentino enfrenta baixa popularidade e disputas internas no partido

Leandro Meireles Pinto, iG São Paulo |

A eleição presidencial de 2011 na Argentina deve marcar o fim da sequência de mandatos do casal Kirchner, segundo análise de Carlos Germano, consultor e analista político de Buenos Aires. “No cenário político atual, os Kirchner não têm condições de sustentar uma candidatura no Partido Justicialista”, explicou Germano em entrevista ao iG .

Eleito em 2003, Néstor Kirchner desistiu de concorrer à reeleição em 2007, apesar de estar em fim de mandato com uma popularidade de 50% - o mais alto nível de aceitação desde a restauração democrática, em 1983. Na época, analistas políticos especulavam que ele havia favorecido sua mulher, Cristina Fernández de Kirchner, com a perspectiva de voltar ao poder em 2011 e garantir ao clã pelo menos 12 anos consecutivos no poder.

Mas há poucas chances de o plano do ex-presidente se concretizar, segundo Germano. E muito por causa da erosão da popularidade de Cristina Kirchner, que se elegeu em 2007 com a maioria de votos em todas as regiões da Argentina, com exceção de Buenos Aires, a área mais rica e populosa do país.

Os bons índices de popularidade do início do mandato caíram pelas denúncias de corrupção contra o casal, pela incapacidade de controlar a inflação e pela tentativa de cobrar um imposto agrícola que desatou um conflito de meses com os ruralistas em 2008. Como é considerada marionete do marido, os desacertos do governo Cristina acabaram manchando a reputação do marido.

“Atualmente, Kirchner é muito mais um líder virtual do que real no Partido Justicialista. Ele perdeu a admiração de setores importantes da sociedade, especialmente da classe média e dos ruralistas”, afirmou o analista político.

Disputa interna no Partido Justicialista

Com o casal Kirchner debilitado politicamente, a disputa para escolher quem será o candidato presidencial promete ser muito disputada dentro do Partido Justicialista, também conhecido como Partido Peronista, por ter sido fundado pelo general Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-1974).

O ex-governador da Província de Santa Fé, Carlos Reutemann, já anunciou que pretende lançar sua candidatura e disputar as prévias internas dos peronistas.

AFP
O casal Néstor e Cristina Kirchner
Apesar de pertencerem ao mesmo partido, Reutemann, um ex-piloto de Fórmula 1 de 68 anos, é um forte crítico do governo de Cristina e tem grande simpatia da classe média argentina. “Reutemann é um político articulador que pode unificar o Partido Justicialista e também agregar o voto não peronista”, afirmou Germano.

O analista explica ainda que é improvável que Reutemann seja um presidente "de oito anos", ou seja, que busque a reeleição, por causa de sua idade avançada. "Isso facilita os acordos com os que desejam ser candidatos à presidência em 2015", disse.

Outro nome que deve ganhar força nos próximos meses para uma possível candidatura é o de Eduardo Duhalde, vice-presidente de Carlos Menem e presidente interino da Argentina entre 2 de janeiro de 2002 e 25 de março de 2003. “Duhalde ainda é um homem muito respeitado dentro do partido e tem bom domínio sobre a estrutura política de Buenos Aires, o maior colégio eleitoral do país”, explicou Germano.

O ex-presidente, no entanto, tem uma imagem muito negativa perante a opinião pública, especialmente entre setores da classe média. Sua rejeição, que já chegou à casa dos 65%, caiu para a faixa dos 55% nos últimos meses. “Mesmo assim, Duhalde deve ter dificuldades para unir a população em torno de sua candidatura”, disse.

Oposição

Desde a eleição de Néstor Kirchner, em 2003, os peronistas conseguiram explorar uma oposição fragmentada, que não conseguiu propor uma alternativa à agenda política do casal. Agora, segundo Germano, a oposição do país conta com dois possíveis fortes candidatos para enfrentar a predominância do peronismo no cenário político.

O principal nome da oposição no momento é Julio Cobos, vice-presidente de Cristina Kirchner. Em 2007, Cobos deixou a União Cívica Radical (UCR), mais tradicional rival do peronismo, para formar chapa com Cristina, que o escolheu como vice para ampliar seu apoio além do Partido Justicialista. Mas Cobos rompeu a aliança um ano depois da posse, durante o conflito com os ruralistas.

Como presidente do Senado e tendo direito ao voto de Minerva, ele ganhou popularidade em julho de 2008, quando desempatou uma votação derrubando o pacote tributário que elevaria os impostos sobre as exportações agrícolas. Os peronistas chamaram Cobos de traidor e Cristina o excluiu das atividades oficiais, mas sem poder demiti-lo.

“Hoje, Cobos é o político argentino mais bem avaliado, com cerca 55% de aprovação”, explicou Germano. Segundo o cientista político, o vice conseguiu essa popularidade ao se colocar como um direto antagonista de Cristina.

Assim como Reutemann, Cobos também é carismático e demonstra ter capacidade para mobilizar o voto dos independentes e até de uma parcela dos peronistas. “Por ser o vice de Cristina, Cobos pode angariar a simpatia dos peronistas indecisos e insatisfeitos”, explicou.

Outro opositor de destaque é o atual prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. O engenheiro de 51 anos afirmou em março que "está pronto para se candidatar à presidência" caso obtenha o apoio de seu partido, o conservador Proposta Republicana (PRO), uma das forças de oposição argentina.

O ex-dirigente do Boca Juniors, clube de futebol de maior popularidade na Argentina, é um dos principais opositores ao governo de Cristina e tem grande popularidade em Buenos Aires. "Macri pode conseguir um grande número de votos na capital, mas é preciso ver como ele se comportará diante dos eleitores das outras regiões da Argentina", disse Germano.

O analista político lembra, no entanto, que ainda é muito cedo para fazer qualquer tipo de previsão mais aprofundada sobre as perspectivas políticas para 2011. Segundo ele, ainda há muitos “possíveis candidatos” e até Cristina pode, por meio de medidas populistas, retomar sua popularidade e alavancar sua candidatura ou a candidatura de seu marido.

    Leia tudo sobre: argentinanéstor kirchnercristina kirchner

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG