Eleição de Obama não altera isolamento da Argentina, dizem analistas

Na opinião de analistas argentinos, a situação de isolamento político e econômico da Argentina não mudará com a eleição do novo presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama. Muitos deles opinam que a Argentina mergulhou neste isolamento a partir da decretação do default da dívida pública, em 2001.

BBC Brasil |

O país não saiu deste quadro nem quando reestruturou esta dívida em 2005, não atendendo a demanda de todos os afetados.

O país voltou a gerar sinais de "afastamento" da comunidade internacional com o anúncio, no mês passado, da nacionalização da previdência privada.

A esta lista de iniciativas que "isolaram" a Argentina, o analista Sérgio Berensztein, professor da escola de governo da Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires, acrescenta ainda as "disputas" do governo do ex-presidente Nestor Kirchner, marido da atual presidente Cristina Kirchner, com diferentes países, entre eles Uruguai, Alemanha e Espanha.

Irrelevância
"A chegada de Obama ao poder não muda nada para a Argentina. Hoje, a Argentina é um país irrelevante na América Latina. E, há muito tempo, os Estados Unidos não dão importância ao país, diz Berensztein.

O analista entende que o anúncio de nacionalização da previdência privada, aprovada nesta sexta-feira pelos deputados argentinos, "reforçou" a imagem de que a Argentina não cumpre contratos e, por isso, mesmo gera desconfiança e se isola ainda mais da comunidade internacional.

"A Argentina, sob o governo dos Kirchner, brigou com o Uruguai, a França, a Alemanha, a Inglaterra, entre outros. E, agora, anunciou a nacionalização da previdência privada. Ou seja, rompeu mais um contrato. Por isso, o melhor que pode acontecer é que Obama nos ignore", disse. O motivo: "Melhor ser ignorado do que castigado pelo rompimento de contratos".

Por sua vez, o analista político Roberto Bacman, diretor do mestrado de opinião pública da Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), entende que este isolamento não é responsabilidade da Argentina, mas de uma era na qual os Estados Unidos e outros países "olham para o próprio umbigo".

Bacman explica: "A Argentina faz parte da América do Sul e esta região está longe de ser prioridade de Obama, que deve solucionar, primeiro, a transição política e problemas internos, gerados pela crise internacional, além das guerras no Iraque e no Afeganistão".

O analista disse discordar "da teoria dos castigos" de Berensztein, destacando que cada país - especialmente os da América do Sul - está mais preocupado com os efeitos da crise internacional.

"Os Estados Unidos estão olhando para o próprio umbigo e nós aqui também estamos preocupados se o dólar sobe, se haverá créditos, ou se essa ou aquela empresa fará cortes de investimentos e de pessoal".

Segundo ele, o perfil administrativo de Cristina não tende a dificultar a relação com Obama, pelo contrário.

"Essa maior participação do Estado na gestão de um país promete ser uma tendência, depois do início da crise econômica", disse.

"Creio que os países da região, além da Argentina, estão governados pela centro-esquerda e este, certamente, é um motivo de maior simpatia em relação ao governo de Obama".

Bacman ressalvou, porém, que a qualidade da nova relação dos países da América do Sul com os Estados Unidos dependerá "muito mais" da reação de Obama para com a região, do que o contrário.

Brasil
Ao mesmo tempo, na Argentina, analistas de diferentes tendências opinam que o Brasil deverá ser o país da América do Sul escolhido por Obama para uma maior aproximação.

O Brasil, entendem, é hoje um país "confiável" e representa a "outra cara" da região, diferente de como hoje o governo americano olha para a Venezuela, governada por Hugo Chávez.

Já a Argentina, poderosa no passado, ficou em segundo plano. "O governo de Obama representará uma etapa de mais protecionismo e de preferência pelo Brasil", escreveu o professor de relações internacionais Carlos Pérez Llana, em um artigo, no jornal Clarin.

Nesta linha, em Washington, o diretor do Centro de Estudos do Hemisfério Ocidental, Riordan Roett, um dos assessores de Obama para América Latina, disse ao jornal El Cronista, de Buenos Aires: "A liderança regional está com o Brasil devido ao tamanho de sua economia e à figura de Lula. Além de o Brasil ser um estado democrático bastante consolidado. Há problemas de corrupção, mas as eleições municipais mostraram que a democracia está funcionando bem".

Segundo ele, a Argentina precisa resolver questões financeiras pendentes, como o pagamento do Clube de Paris e daqueles que não aceitaram a oferta do governo pelo default de 2001. "Se não, o país ficará muito isolado em termos financeiros".

Os economistas argentinos Miguel Bein e Miguel Kiguel afirmam que a Argentina hoje "manda sinais dúbios" ao mundo, contribuindo para este isolamento.

"Num dia, o governo diz que pagará o Clube de Paris em dinheiro (o que ainda não foi concretizado) e de uma só vez. No outro, anuncia a nacionalização da previdência. Assim fica difícil", disse Kiguel.

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