El Baradei desafia autoridades do Egito com discurso público

MENEIET SAMANNOUD, Egito (Reuters) - O diplomata egípcio Mohamed El Baradei, ex-diretor-geral da agência nuclear da ONU, fez nesta sexta-feira um apelo público por mudanças institucionais no seu país, desafiando o estado de emergência que proíbe reuniões com críticas às autoridades. Agentes à paisana estavam no local quando El Baradei, pré-candidato a presidente nas eleições previstas para 2011, conclamou cerca de 700 pessoas em uma aldeia no nordeste do Egito a aderirem a um abaixo-assinado por reformas.

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"O Estado pode ser um poder centralizado, mas as pessoas são mais fortes," disse ele à plateia, parte da qual chegara com ele ao local vindo da localidade de Mansoura, uma capital provincial perto dali, no delta do Nilo.

O objetivo do abaixo-assinado é alterar as leis de modo que independentes como El Baradei tenham mais facilidade para disputar a presidência, após décadas sob o regime autoritário do presidente Hosni Mubarak.

O documento também pleiteia o fim do estado de emergência, que permite prisões sem mandado judicial e proíbe qualquer atividade política de oposição - como o discurso de El Baradei e uma visita anterior dele a Mansoura, onde foi recebido por até 1.500 simpatizantes.

El Baradei disse que irá apresentar o abaixo-assinado quando "juntarmos o máximo possível de nomes."

A polícia egípcia costuma dissolver qualquer reunião pública com mais de cinco pessoas, o que não ocorreu na sexta-feira.

"Recebemos instruções do Ministério do Interior para permitir que o comício e a reunião transcorressem tranquilamente," disse sem se identificar um agente no local, acrescentando que a avaliação das autoridades foi de que El Baradei não irá fazer outro comício, e que portanto seria melhor não interferir.

Analistas acham improvável que haja uma reforma política até o ano que vem no mais populoso país do mundo árabe, cuja política é dominada pelo Partido Nacional Democrático, de Mubarak.

El Baradei voltou ao Egito em fevereiro, após 12 anos como chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, um órgão da ONU), com sede em Viena.

O regresso dele energizou o clima político, e analistas dizem que o governo está ciente de que o diplomata de 67 anos não é um adversário comum.

"O regime foi inteligente desta vez, porque sabe que com El Baradei as regras do jogo são diferentes," disse o jurista Yahya al Gamal à Reuters. "A opinião pública internacional está seguindo cada movimento de El Baradei."

A plateia do evento de sexta-feira era composta por engenheiros, donas de casa, médicos e taxistas, entre outros. Muitos diziam temer a repressão das autoridades.

"Buscamos uma reforma pacífica ao arregimentar um grande número de seguidores para a mudança. Buscamos emendas constitucionais e eleições livres e limpas. O cidadão egípcio tem o direito de escolher seu presidente," afirmou El Baradei.

Mubarak, de 81 anos, que voltou da Alemanha em 27 de março, depois de uma cirurgia de vesícula biliar, ainda não revelou se pretende disputar um sexto mandato. Caso não queira, muitos egípcios acham que ele indicará seu filho Gamal. Pai e filho negam que tal plano exista.

(Reportagem de Ghada Abdel Hafez e Meneiet Samannoud)

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