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Egípcios se voltam ao Exército em busca de salvação política

Quase 60 anos depois que o Exército do Egito tirou a monarquia do poder, alguns egípcios podem estar novamente se voltando para os militares para encontrar um sucessor para o chefe de Estado e ex-comandante da Força Aérea, Hosni Mubarak, que já está com 80 anos. No Egito, os militares são encarados como motivo de orgulho e, desde cedo, esse orgulho é ensinado para as gerações mais jovens.

BBC Brasil |

Não muito longe do pódio onde o presidente Anwar Sadat foi assassinado em 1981, enquanto assistia a um desfile militar, fica um enorme friso, um tríptico dourado que glorifica os militares do país.

A cena central mostra soldados junto com fazendeiros, trabalhadores e estudantes, levando uma placa onde se lê 1952, o ano em que um grupo de oficiais do Exército tirou o rei Farouk do poder e proclamou a República no Egito.

Outra atração fica não muito longe, em Heliópolis. É o Panorama de Outubro, uma exibição permanente que descreve, em termos épicos, como o Exército egípcio cruzou o Canal de Suez em 1973 e destruiu as fortificações israelenses.

A exibição é visitada regularmente por grupos de escolas, para despertar nos estudantes o amor e orgulho pelas Forças Armadas do país.

A mensagem é clara: os militares injetam dignidade e orgulho no Egito e merecem seu status privilegiado, um status que os oficiais têm desde 1952.

No entanto, esses privilégios alcançaram um novo patamar durante o governo de Hosni Mubarak, que assumiu depois do assassinato de Sadat.

Clubes de oficiais têm instalações luxuosas para esportes e também restaurantes, os militares têm casas subsidiadas, hospitais militares. E esses são apenas alguns dos benefícios mais visíveis, que nenhum outro profissional egípcio tem.

O setor militar do país também foi transformado em um verdadeiro império de negócios, cujo tamanho exato, movimento e lucros não podem ser divulgados para ninguém. Nem mesmo o Parlamento pode analisar esses negócios.

Assunto tabu
Em público, ninguém ousa falar sobre as Forças Armadas. "Não temos permissão sequer para mencionar as palavras 'o Exército' em nossos artigos", conta um jovem jornalista.

Um homem que quebrou esse tabu, Talaat Sadat, passou um ano preso.

Sadat, que é parlamentar e sobrinho do presidente assassinado Anwar Sadat, sugeriu durante um discurso no Parlamento que a investigação sobre o assassinato de seu tio não teve a abrangência necessária.

Apesar de ter passado um ano em uma prisão militar, Sadat diz ainda acreditar que o Exército é a melhor opção para o Egito depois que Mubarak deixar o poder.

"Estamos esperando que o Exército dê o primeiro passo, então vamos apoiá-lo, assim como em 1952", afirma.

"Estou farto de ministros-empresários, especialmente os príncipes do (partido de governo) NDP (Partido Nacional Democrata)", acrescenta Sadat, em uma aparente referência à nova elite empresarial associada ao filho do presidente Mubarak, Gamal.

Pobreza
Angy Haddad, editora educada em Harvard, conta que já trabalhou para o NDP por acreditar que a reforma era possível de dentro do governo, mas diz que se decepcionou rapidamente.

Haddad, então, ajudou a estabelecer um grupo para monitorar as eleições e outro para lutar contra a corrupção dentro das instituições de governo.

Ela afirma que vê a pobreza como uma bomba relógio no Egito e acrescenta que não existe alternativa, a não ser a intervenção dos militares.

"Todos nós esperamos que isso aconteça. E com 'nós' quero dizer os liberais. O jogo já não é mais justo! O jogo está contra os pobres. Não há futuro", protesta. "O país está sendo devorado pela corrupção."
Haddad espera que uma figura patriótica do Exército veja a injustiça do país e tente acertar as coisas.

Desenvolvimento político
Para liberais e esquerdistas egípcios, o grupo de oposição Irmandade Muçulmana do Egito, maior e mais antigo grupo político islâmico e considerado fora da lei, não é uma opção.

Por isso, aquele que é conhecido como o "cenário hereditário", com Gamal Mubarak tomando posse como presidente no lugar de seu pai, é considerado uma armadilha fantasiada de voto democrático.

Críticos e ativistas da oposição afirmam que, durante quase três décadas, Hosni Mubarak evitou o desenvolvimento de um sistema político maduro, em nome da estabilidade no país.

E o fato de até mesmo os liberais pedirem que o Exército assuma o controle da situação no Egito leva a imaginar o que os oficiais pensam a respeito.

Mas, como o Exército não conversa com a imprensa, foi preciso ouvir Tharwat Okasha, um dos arquitetos do golpe de 1952, que está entre os poucos sobreviventes daquela época.

Okasha está com mais de 80 anos e já foi embaixador e ministro da Cultura durante a era do presidente Gamal Abdel Nasser. O acesso a ele é difícil.

E o veredicto de Okasha para as consequências do envolvimento de militares na política é de condenação.

Quando perguntado se teria participado do movimento de 1952 se soubesse das consequências, a resposta é categórica.

"Nunca teria participado, nunca", responde de maneira defensiva.

Um alerta para aqueles que pensam que soldados ainda podem resolver questões políticas.

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