Egípcios ignoram eleições municipais marcadas por irregularidades e boicote

Cairo, 8 abr (EFE).- O desinteresse e as irregularidades reinam hoje nas eleições municipais no Egito, marcadas pelo boicote da principal legenda opositora, os Irmãos Muçulmanos, que desistiu de concorrer por estar sendo reprimida pelas forças de segurança.

EFE |

O pleito poderia ter servido para medir a força dos islamitas, mas se transformou em um trâmite no qual o governante Partido Nacional Democrático (PND) do presidente egípcio, Hosni Mubarak, conseguiu de antemão cerca de 70% dos cargos em jogo por falta de concorrentes.

De acordo com o que a Agência Efe pôde constatar hoje pela manhã em diversas localidades egípcias, a presença de eleitores nos colégios eleitorais foi mínima.

Nos poucos lugares onde houve a presença de pessoas dispostas a votar, as irregularidades foram óbvias e explícitas, sobretudo nos bairros mais pobres, onde chegaram a ser cômicas.

Em Bulaq, uma região popular do centro do Cairo, um grupo de mulheres idosas que haviam acabado de votar no colégio eleitoral de Ramla contou à Efe como passaram horas "esperando alguém que pagasse alguma coisa".

"Viemos no começo da manhã e ainda não nos deram sequer um refresco", afirmou uma destas mulheres, vestidas com túnicas pretas, cobertas com véu e, aparentemente, de classe social muito humilde.

Dentro deste colégio, era possível ver pilhas de libras egípcias sem dono aparente, todas em cima da mesa onde se encontravam as listas de eleitores e em frente às urnas.

A mesma falta de interesse pôde ser observada nos colégios de regiões mais poderosas, como o bairro de Maadi, no sul do Cairo, onde alguns poucos cidadãos quiseram exercer seu direito ao voto.

A maioria dos presentes nos colégios era funcionários governamentais e interventores do PND, que apresentou candidatos para cada um dos mais de 52 mil postos nos conselhos municipais e assembléias provinciais.

O partido de Mubarak se faz presente de maneira quase hegemônica nas cédulas, nas quais tem a companhia de outras legendas minoritárias, como o pan-arabista Partido Árabe Nasserista Democrático, o esquerdista Tagamu e os liberais Wafd e Ghad.

Segundo a edição de hoje do jornal independente "Al-Masry Al-Youm", os partidos da oposição juntos só conseguiram apresentar cerca de 1.200 candidatos.

Os resultados das eleições serão anunciados em cinco dias a partir de quarta-feira.

A convocação eleitoral de hoje chega em um momento no qual o mal-estar social contra Mubarak e seu Governo de tecnocratas chega a patamares poucas vezes alcançados nos mais de 25 anos de mandato do presidente.

No domingo, foi realizada uma greve geral pela alta dos preços dos bens básicos, que teve pouca adesão, mas que acabou com duros confrontos entre a Polícia e os trabalhadores do setor têxtil de Mahalla al-Kubra, no delta do Nilo.

Segundo a imprensa egípcia, os representantes do PND na cidade chegaram a um acordo com a oposição para retirarem suas candidaturas e permitirem que membros de outros partidos cheguem ao poder devido à intensa movimentação nas ruas.

Neste ambiente de tensão contra o Governo, os Irmãos Muçulmanos voltaram a pedir aos "egípcios honrados" para que não compareçam às urnas.

"Não há eleições reais, o PND é o único concorrente", diz em comunicado Abdel Moneim Abul Fotouh, membro do Executivo da Irmandade.

A organização islamita tinha inscrito cerca de dez mil candidatos, mas a grande maioria deles foi rejeitada pelas autoridades eleitorais por pertencerem a um partido ilegal.

Nos últimos meses, as forças de segurança do Egito lançaram uma perseguição em grande escala contra membros da organização. A ação resultou na detenção de mais de mil deles e reduziu o número de candidatos elegíveis e em liberdade a apenas 21.

Apesar de terem sido ilegalizados em 1954 pelo então presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, os Irmãos Muçulmanos gozam de uma certa tolerância política que lhes permitiu em 2005 conseguir um quinto das cadeiras do Parlamento do país. EFE er/bba/db

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