Efeitos da invasão de Saddam continuam no Kuwait 20 anos depois

Relação entre Iraque e Kuwait permanece estremecida apesar de esforços para superar "o pior erro de ex-ditador iraquiano"

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As feridas da invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein há 20 anos ainda estão profundas e prejudicam os laços entre os dois países vizinhos apesar dos esforços para superar o que tem sido descrito como o pior erro do ex-ditador iraquiano.

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Reprodução de foto do Museu de Nash ou da Vitória mostra o presidente iraquiano, Saddam Hussein (à esq.), visitando soldados iraquianos no Kuwait
A ofensiva de 2 de agosto de 1990 resultou na Guerra do Golfo, em que uma coalizão militar de 34 nações lideradas pelos EUA e a Grã-Bretanha agiu para expulsar as forças de Saddam do emirado e eventualmente levou à sua deposição depois da invasão do Iraque em 2003.

Após a invasão do Kuwait, o Iraque sofreu sanções e, com sua resistência em deixar o país, suas forças foram bombardeadas no Kuwait em 16 de janeiro de 1991. O fim do conflito, com a expulsão das tropas iraquianas do país, ocorreu em 28 de fevereiro de 1991.

Como resultado da ofensiva de 1990, o Iraque continua a pagar reparações de guerra ao Kuwait, e desacordos entre os dois países em questões de fronteira terrestre e marítima persistem. "Essa foi uma das piores decisões que Saddam tomou", disse o ministro de Relações Exteriores do Kuwait, Hoshyar Zebari, à agência AFP.

"Realmente, o Iraque tem sofrido por causa dessa decisão desde então. Durante os últimos sete anos, eu, como chanceler, tenho me esforçado a recolocar meu país no lugar onde estava antes de 2 de agosto", afirmou.

Desde 1994, quando a ONU estabeleceu um fundo de reparações, o Iraque pagou US$ 30,15 bilhões ao Kuwait, sendo que há um adicional de US$ 22,3 bilhões em indenização que ainda tem de ser pago. A ONU também estabeleceu que Bagdá tem de colocar 5% de sua renda de petróleo e gás no fundo.

Além disso, há estimados US$ 8 bilhões em dívida bilateral e cerca de US$ 1 bilhão de dívida ao Kuwait como resultado de uma decisão judicial por causa de uma disputa entre as companhias aéreas dos dois países. Essas obrigações são prejudiciais a um país cuja infraestrutura e economia necessitam urgentemente de reconstrução depois de anos de violências e sanções internacionais.

"Até que o Iraque alcance uma estabilidade interna e o governo seja capaz de obter uma política externa unitária, as relações entre o Kuwait e o Iraque permanecerá como um assunto controvertido", disse Massouma al-Mubarak, presidente da Comissão de Relações Externas do Parlamento do Kuwait. "As feridas são muito profundas", ela disse. "Nos é muito difícil esquecer, mas tentamos virar a página nas relações entre o Kuwait e o Iraque."

Questões cruciais entre os dois países continuam sem solução, sendo a principal delas o acordo de fronteiras terrestre e marítima que a ONU demarcou oficialmente no início dos anos 90.

Enquanto Saddam aceitou essas fronteiras, estabelecidas na Resolução 833 do Conselho de Segurança, o atual governo iraquiano ainda tem de fazê-lo, uma decisão que foi descrita por Zebari como "política". "Esperava resolver isso antes do fim do ano, para fechar esse capítulo", afirmou.

O ministro notou que "o Iraque sentiu que isso não seria bem recebido pelo público" por causa das eleições de 7 de março. Havia preocupação de que essa decisão poderia ser "um tiro no pé", então resolvemos deixar essa decisão para o próximo governo.

Os diplomatas questionam, entretanto, se a lentidão do Iraque em aceitar a Reolução 833 tem mais relação com seu desejo de usá-la como peça de barganha em negociações com o Kuwait. "Kuwait se opõe radicalmente a qualquer revisão da fronteira", disse sob condição de anonimato um diplomata graduado em Bagdá. "A atual hesitação do Iraque apenas reforça a posição de desafio do Kuwait e sua hostilidade a qualquer iniciativa que colocaria em questão a presente demarcação da fronteira."

Os dois países cooperam, entretanto, em questões relacionadas ao retorno dos restos mortais de pessoas do Kuwait e do Iraque durante o conflito, e às demandas do Kuwait de que sua propriedade e arquivos sejam devolvidos.

De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, os destinos de mais de 300 desaparecidos - 215 do Kuwait, 82 do Iraque e vários de outras nacionalidades - foram esclarecidos em novembro de 2009. Zebari disse que os restos mortais de 265 dos declarados 600 desaparecidos desde a invasão foram enviados ao Kuwait, enquanto o Iraque cooperou em devolver arquivos e documentos.

A melhora dos laços, que em grande parte inclui a aceitação de Bagdá de sua fronteira compartilhada, será chave para o levantamento de sanções relacionadas ao Capítulo 7 da resolução da ONU, que classificou o Iraque de ameaça à segurança interncional.

Mas enquanto o Iraque insiste que está cumprindo com suas obrigações internacionais, a decisão final caberá ao Conselho de Segurança. A posição atual do órgão "é atuar para a saída do iraque do Capítulo 7, mas não às custas da segurança e do interesse do Kuwait", disse um diplomata com base em Bagdá. "A ONU ainda não está inclinará a comprometer seus interesses de longo prazo em um estável e rico Kuwait para ganhos ainda incertos no Iraque".

*Por Prashant Rao

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