Os efeitos da crise econômica internacional no comércio entre Brasil e Argentina prometem ser um dos principais assuntos da visita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz nesta quarta e quinta-feira a Buenos Aires, como antecipou à BBC Brasil o subsecretário de Integração Econômica do Ministério de Relações Exteriores da Argentina, Eduardo Sigal. O comércio bilateral bateu, no ano passado, recorde de US$ 31 bilhões, mas caiu 50% nos primeiros três meses deste ano (em relação ao mesmo período de 2008), afirmou Sigal.

Segundo ele, os dois países pretendem descobrir se esta retração foi resultado da "recessão" internacional ou de "desvio de comércio", ou seja, se Brasil e Argentina estariam abrindo mais espaço para mercadorias de outras economias ou blocos.

De acordo com dados da consultoria Abeceb, especializada na relação comercial entre os dois países, em março deste ano, pela primeira vez desde junho de 2003, a Argentina registrou saldo positivo na balança com Brasil.

Mas este saldo positivo (de US$ 20 milhões), no entanto, teria ocorrido devido à queda no comércio bilateral, especialmente devido à menor compra de produtos argentinos por parte do Brasil.

Disputas
Nos últimos anos, a Argentina tem demonstrado preocupação com a presença de produtos asiáticos no mercado brasileiro.

Recentemente, o governo da presidente Cristina Kirchner adotou medidas para dificultar a entrada destas mercadorias, tentando proteger a produção local.

Estas medidas, no entanto, também afetaram os produtos brasileiros, gerando uma disputa entre empresários dos dois países.

Segundo Sigal e fontes da Secretaria de Indústria da Argentina, esta disputa vem sendo discutida pelos setores empresariais, com acompanhamento de negociadores dos dois governos.

Por isso, segundo eles, a expectativa é que estas diferenças não sejam tratadas durante a visita de Lula à capital argentina.

Há quinze dias, foi realizada uma reunião entre empresários dos dois países em São Paulo e um novo encontro foi marcado para o fim deste mês, em Buenos Aires.

Entre os produtos que a Argentina define como "sensíveis" estão, por exemplo, têxteis, pneus e máquinas agrícolas. Ou seja, uma lista que também inclui produtos brasileiros.

Agenda de encontros
Eduardo Sigal lembrou que essa será a terceira reunião entre Lula e Cristina que faz parte de uma agenda de encontros semestrais para balanços da integração bilateral."Esse mecanismo (de reuniões a cada seis meses) começou antes da crise. Mas, agora, esses encontros passaram a ser importantes para avaliar os efeitos da crise e para se desenvolver mecanismos compartilhados para combatê-la", disse Sigal.

Lula estará acompanhado por ministros e, por isso, afirma Sigal, não se descarta que a questão a capacidade da Argentina de exportar trigo para o mercado brasileiro também seja tratada, mesmo que rapidamente.

"O Brasil nos pediu uma avaliação de quanto podemos exportar. A colheita começa agora e, após medir o que necessitaremos para o mercado interno, teremos a resposta", afirmou.

Outros assuntos que fazem parte da agenda prevista do encontro são a cooperação na área de energia nuclear para uso pacifico, infraestrutura, e ainda uma avaliação na cooperação na área de defesa, cujo carro-chefe é a fabricação conjunta do jipe militar batizado de "Gaúcho", além dos passos para a cooperação na área naval.

Todos estes assuntos já vêm sendo discutidos entre autoridades dos dois governos, mas a ideia é avaliar em que situação se encontram.

A previsão é de que também seja avaliado se a eliminação do dólar nas transações comerciais entre os dois países já surtiu os efeitos esperados.

Recentemente, reportagem publicada na imprensa argentina revelou que o interesse ainda era limitado, mas espera-se, nos dois governos, maior adesão a partir da maior compreensão da iniciativa.

Meio ambiente
A Argentina também deverá expressar sua preocupação com a construção da usina hidrelétrica de Baixo Iguaçu, no Paraná, na região das Cataratas do Iguaçu.

A obra, que deverá custar cerca de R$ 1,6 bilhão, está sendo criticada por comerciantes, empresários e políticos argentinos, que temem pelos efeitos da construção no ecossistema local.

A usina será construída no município de Capitão Leônidas Marques, 90 km acima da cabeceira das Cataratas do Iguaçu e apenas 1 km do Parque Nacional do Iguaçu.

A obra colocou em alerta toda a comunidade que vive no entorno das cataratas pela perspectiva de alteração no fluxo de águas que as abastecem.

Afinar discursos
Ouvidos pela BBC Brasil, os analistas argentinos Félix Peña, especialista em relações econômicas internacionais, e Raul Ochoa, especialistas em comércio internacional, destacaram que encontros assim contribuem para a integração regional. Mas fizeram ressalvas.

"O presidente Lula faz bem em agir com a fórmula 'paz e amor ' para gerar boa relação na região. Mas chegará o momento em que os problemas do Mercosul, que está paralisado, deverão ser tratados", disse Peña.

Já Ochoa observou que os presidentes deveriam aproveitar estes encontros para "afinar" os discursos antes das reuniões internacionais.

"As reuniões do G20 e a Cúpula das Américas mostraram, uma vez mais, que não estamos indo como convidados, mas como participantes sérios. Por isso, é preciso definir e afinar os discursos para que se aproveitem mais estes fóruns internacionais", destacou.

Neste contexto, Cristina Kirchner anunciou na terça-feira que também pedirá a ajuda de Lula para promover a participação da OIT (Organização Internacional do Trabalho) na próxima Cúpula do G20 (grupo de países mais ricos e principais emergentes), em setembro.

"Pedirei a Lula que me acompanhe para que na próxima reunião do G20, em setembro, participem formalmente, com voz ativa, os trabalhadores e os empresários, para discutir os caminhos para se sair da crise', disse Kirchner à imprensa, após encerrar um seminário da OIT em Buenos Aires.

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