Economistas dos EUA divergem sobre futuro econômico do país

Dados divulgados nesta quinta-feira indicam que a economia americana saiu da recessão, mas analistas alertam que a recuperação dos Estados Unidos será lenta. A BBC ouviu dois economistas americanos que têm opiniões diferentes sobre o tema.

BBC Brasil |

John Silvia é economista-chefe do banco Wells Fargo no Estado americano da Carolina do Norte. Ele afirma que os trabalhadores e consumidores americanos vão se decepcionar com o declínio do padrão de vida no longo prazo.

Já Mark Perry, professor de economia da Universidade de Michigan-Flint e atualmente economista visitante do Instituto American Enterprise de Washington, é mais otimista e espera o crescimento do emprego até o final de 2010, além de preços baixos para consumidores.

BBC - Alguns temem que o crescimento dos Estados Unidos diminua quando o pacote de estímulo fiscal de US$ 787 bilhões do presidente Barack Obama acabe. Qual a possibilidade de um retorno à contração econômica?
John Silvia: Não acho que seja o caso de um retorno à recessão.

A recuperação está sendo levada pelo gasto fiscal e pela recuperação gradual do gasto dos consumidores e dos investimentos em negócios. Não espero que o governo Obama faça nenhuma mudança drástica na política fiscal.

E a inflação baixa vai continuar, permitindo que o Fed mantenha as taxas de curto prazo baixas.

Mark Perry: Acho que a recessão acabou em junho e também não vejo chances de um retorno a ela. Haverá um forte crescimento no quarto trimestre (4% a 5%), com crescimento mais moderado em 2010, de entre 2,5% e 3%.

A maior parte do estímulo fiscal será liberada no próximo ano, o que vai ajudar no crescimento econômico.

Teremos uma "recuperação sem empregos" novamente durante 2010, como ocorreu depois das recessões de 1990-1991 e 2001. A taxa de desemprego deve continuar entre 9,8% a 10% durante 2010, caindo gradualmente para abaixo de 9,5% no final de 2010.

Existe um risco apenas moderado de inflação, que deve continuar abaixo de 2% durante o próximo ano.

Alguns sinais de recuperação do consumo já estão evidentes. O número de viagens áreas aumentou em setembro e o volume de tráfego permaneceu alto vários meses seguidos.

A forte recuperação global em mercados emergentes como China, Brasil e Índia vai ajudar no apoio à recuperação dos Estados Unidos.

John Silvia: O forte crescimento da segunda metade deste ano será substituído pelo crescimento de 2,4% em 2010, e o estímulo do governo diminuirá já na primeira metade do próximo ano. Mas a recuperação sem emprego vai estabelecer conflitos econômicos e políticos.

A recuperação sem emprego aponta para ganhos decepcionantes na renda e nos gastos pessoais.

E, novamente, a recuperação sem pregos e a cautela do Fed (o Banco Central americano) sugere que o mercado imobiliário vai continuar fraco. Governos locais enfrentarão um período de dois anos de ganhos mínimos no faturamento dos impostos sobre imóveis e, portanto, uma inabilidade para alcançar as expectativas na educação local.

Desemprego e o grande déficit federal resultarão em perdas para o Partido Democrata no Congresso, de 30 ou mais cadeiras na Câmara dos Representantes e três vagas no Senado nas próximas eleições, em 2010.

O dólar vai continuar seu declínio e o padrão de vida dos Estados Unidos vai continuar a cair em relação a outros países.

Mark Perry: Acredito que o declínio do dólar vai se estabilizar antes de causar danos à economia e declínio nos padrões de vida dos Estados Unidos.

A força das moedas estrangeiras em relação ao dólar vai ajudar os Estados Unidos a melhorar as exportações e fazer uma contribuição positiva para o PIB este ano e no próximo.

A recuperação global também vai ajudar a estimular as exportações americanas e vai ajudar a economia americana de uma forma que não aconteceu antes. A força global vai ajudar a tirar os Estados Unidos da recessão neste ano e no próximo.

Enquanto isto, o mercado de ações vai continuar a subir, devido aos enormes ganhos de produtividade, os lucros corporativos também vão aumentar.

O mercado imobiliário está se recuperando. Com os preços de casas aumentando, o mercado vai continuar a melhorar, a construção será retomada no próximo ano e tudo isto terá algum efeito no fraco crescimento do emprego.

Taxas de juros baixas e estáveis, com inflação moderada, vão ajudar o mercado imobiliário e manter baixos os custos de crédito ao consumidor e empresas, criando um momento para o crescimento.

John Silvia: Concordo que este é um momento de crescimento. Mas acho que o ritmo será decepcionante para uma sociedade e uma classe política que fez promessas importantes nas áreas da saúde e da educação, que não serão cumpridas apenas com crescimento moderado.

Famílias de renda média e baixa renda verão seu padrão de vida cair abaixo das expectativas.

Haverá crescimento sim, mas não o bastante para manter os eleitores felizes.

Mark Perry: Com a queda nos preços em praticamente todos os setores, nunca houve um momento melhor para ser um consumidor nos Estados Unidos e isto (o consumo) vai contrabalançar as perdas de renda.

E também o crescimento no emprego no final de 2010 vai ajudar a aumentar a confiança e a renda dos consumidores.

A economia americana tem capacidade de recuperação e isto vale para trabalhadores, consumidores e companhias. Uma forte recuperação econômica poderá surpreender a todos.

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