Economia norte-irlandesa mira no exterior para recuperar tempo perdido

Javier Aja Dublin, 9 abr (EFE).- Dez anos depois da assinatura do Acordo da Sexta-Feira Santa, que ajudou a pôr fim a um dos conflitos mais sangrentos do século XX, a Irlanda do Norte olha para o exterior em busca de investimentos que venham a livrar sua economia, antes uma das mais subsidiadas da Europa, dos efeitos de quase quatro décadas de conflito.

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Curiosamente, seu espelho agora não é o Reino Unido, e sim a República da Irlanda, um país que a maioria protestante norte-irlandesa olhou com receio por suas aspirações de anexação e com desdém pelo atraso socioeconômico que sofreu até meados da década de 1990.

Um dos principais objetivos de todos os partidos políticos da província do Ulster, obrigados pelo Acordo da Sexta-Feira Santa a compartilhar do Governo de Belfast, é diminuir a atual "taxa corporativa" para níveis mais atrativos a investidores estrangeiros.

Atualmente esse imposto é de 30% na Irlanda do Norte, enquanto na do Sul é de 12,5%.

Outra grande diferença é que a economia regional ainda depende em grande medida do setor público, sobretudo depois da recente queda da indústria têxtil e do fim de seus famosos estaleiros, que tinham em sua história a construção do "Titanic" há quase um século.

Para complicar, o Ministério da Fazenda é responsável pelo pagamento de um em cada três trabalhadores na Irlanda do Norte. Isso significa que o país dispõe de mais de 200 mil funcionários públicos, enquanto a República da Irlanda - que tem quase o triplo da população do vizinho do Norte - conta com apenas 280 mil.

Apesar de tudo, nem todos os sinais são negativos. De acordo com o renomado economista britânico John Simpson, desde a assinatura do acordo de paz em 10 abril de 1998, a "magnitude e o ritmo da recuperação econômica da região foi espetacular".

"Os negócios - diz - foram ganhando ritmo ano após ano, até chegarem a uma situação mais afortunada, que obteve seu ponto alto em 2006 e 2007", após a formação de um histórico Governo de poder compartilhado entre o Sinn Féin, braço político do inativo Exército Republicano Irlandês (IRA), e o Partido Democrático Unionista (DUP), do reverendo protestante Ian Paisley.

Para o analista, a economia tomou impulso desde então porque os cidadãos vêem possibilidades reais de melhorar sua qualidade de vida, porque os investidores se vêem capazes de atingir suas expectativas e porque o Governo se comprometeu a "reorientar" o setor público.

Como exemplo desse novo clima de consenso entre os partidos, e que, até o momento, parecem não misturar ideologias quando o assunto é economia, o Governo norte-irlandês apresentou em outubro último seu primeiro programa de Governo para os próximos quatro anos.

Paisley prometeu criar 6.500 novos postos de trabalho no setor privado de 2008 a 2011, ao mesmo tempo em que falava em elevar em 25% o investimento em infra-estruturas feito por Londres ao longo dos três anos anteriores, quando os ministros britânicos ainda administravam a região devido à "paralisia" do processo de paz.

O setor privado, assegurou o reverendo, será reforçado com a criação de, pelo menos, 45 novas empresas, enquanto 600 companhias já estabelecidas na Irlanda do Norte deveriam se transformar em exportadoras em menos de três anos.

Paisley também prometeu melhorias no setor de transporte na província, sobretudo em ferrovias, e em elevar a taxa de emprego para 75% até 2020.

Como a República da Irlanda, o novo Governo norte-irlandês tratará, além disso, de revitalizar o turismo na província, aumentando o número de visitantes anuais em meio milhão, para 2,5 milhões.

Não há dúvida de que as conquistas obtidas nos últimos dez anos alimentam o otimismo do Governo liderado por Paisley, que, por certo, nunca aceitou integralmente o conteúdo do Acordo da Sexta-Feira Santa.

Desde 1998, por exemplo, a Irlanda do Norte passou da apresentação da taxa de desemprego mais alta do Reino Unido à mais baixa, ao mesmo tempo em que conseguiu frear a emigração e se transformar em um receptor de imigrantes, sobretudo de trabalhadores do Leste Europeu.

No entanto, segundo Simpson, ainda resta muito a ser feito para que seja registrado um crescimento econômico sustentável.

Em 1998, por exemplo, o salário médio de um trabalhador norte-irlandês era 19,4% menor que no resto do Reino Unido. Em 2007, essa diferença só caiu 0,8%. EFE ja/fr

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