Economia é desafio para candidatos no Irã, dizem analistas

A economia será uma das principais preocupações dos eleitores iranianos quando forem às urnas, nesta sexta-feira, escolher o novo presidente do país, disseram analistas entrevistados pela BBC Brasil.

BBC Brasil |

Segundo dados recentes do Banco Central do Irã, a inflação no país estava em 25% ao mês, e com metade de sua população abaixo dos 50 anos, o governo divulgou que o índice de desemprego ficou em 12% em 2008.

Para o analista político iraniano Bijan Khajehpour, a economia será a grande preocupação dos eleitores, e os candidatos deverão apresentar propostas concretas.

O analista econômico iraniano Saeed Leylaz concorda. Para ele, os candidatos terão que focar suas estratégias no campo econômico para atrair votos.

"(O presidente Mahmoud) Ahmadinejad perdeu popularidade por, repetidamente, se recusar a ouvir os conselhos de muitos economistas do país que criticaram em cartas suas políticas econômicas e pediram mudanças. Se for reeleito, não acredito que mudará seu plano para a economia", afirma Leylaz.


Iranianos participam de comício de Ahmadinejad / AP

A queda no preço internacional do petróleo também afetou duramente o Irã, que possui uma das maiores reservas de gás e petróleo do mundo mas não tem um complexo de refinarias para atender a demanda doméstica e acaba tendo que comprar combustível a preço de mercado.

"Muitos iranianos querem saber o que o governo fez com os altos lucros provenientes do petróleo quando o preço estava alto. Mas o que viram foi um país caindo em recessão", disse Khajehpour.

Segundo turno

Quatro candidatos disputam o pleito no próximo dia 12 : o ex-primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi, o ex-chefe da Guarda Revolucionária Mohsen Rezai, o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karroubi e o atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, que busca um segundo mandato.

Uma recente pesquisa eleitoral realizada pela agência de notícias chinesa Xinhua aponta a liderança de Mousavi nas dez maiores cidades do país, com 34% a 38% da intenção de votos. Em Teerã, uma pesquisa da emissora estatal IRIB indica a liderança de Mousavi com índice entre 43% e 47%.

"Se nada de inesperado acontecer, Ahmadinejad e Mousavi deverão ir para o segundo turno (no dia 19 de junho). Mousavi, então, deverá receber o apoio dos outros candidatos para formar um governo de coalizão", acredita Khajehpour.


Mousavi tem forte apoio dos jovens / AP

Por enquanto, os dois candidatos considerados reformistas, Mousavi e Karroubi, vêm adotando a estratégia de atacar as políticas econômicas de Ahmadinejad, sua falta de habilidade para lidar com a comunidade internacional e a polêmica em torno do programa nuclear iraniano.

Programa nuclear

O polêmico programa nuclear do Irã será mais um desafio para o futuro presidente.

Os Estados Unidos e outros países ocidentais acusam Teerã de estar tentando desenvolver armas nucleares, mas o governo iraniano alega que seu programa tens fins pacíficos, para a geração de energia.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas impôs sanções ao país e ofereceu incentivos econômicos em troca da suspensão de seus programa de enriquecimento de urânio, mas por enquanto Teerã recusou a oferta.

De acordo com o professor Mohammad Marandi, diretor do departamento de estudos americanos da Universidade de Teerã, todos os candidatos à Presidência iraniana, incluindo Mousavi, apoiam o direito do país à tecnologia nuclear.

"Este não é um assunto ideológico, mas é um ponto de orgulho nacional que é compartilhado pela sociedade iraniana", salientou ele.

Segundo o professor, a posição de negociação iraniana em torno de seu programa nuclear será determinada mais pelo líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, do que pelo presidente eleito.

Mesmo assim, os oponentes de Ahmadinejad criticaram a forma como ele lidou com a questão nuclear no âmbito internacional, sem transparência e racionalidade.

Estados Unidos e árabes

A relação com os Estados Unidos e os vizinhos árabes também será um desafio para o futuro presidente.

As relações entre o Irã e os EUA estão estremecidas desde a Revolução Islâmica iraniana, em 1979, mas desde que assumiu o governo americano, o presidente Barack Obama ofereceu abertura de diálogo ao Irã.

Mas por enquanto, não houve qualquer sinal do Irã sobre uma reaproximação com os americanos.

O professor Marandi disse que o Irã precisará adotar uma nova diplomacia, que durante o atual governo foi mais desafiadora e se utilizou de retórica excessiva.

"Eu só vejo uma reaproximação, e candidatos terão que resolver essa velha questão com os EUA, que não pode continuar do jeito que está", enfatizou.

Recentemente, Ahmadinejad declarou em uma conferência que estava pronto para manter conversações com Obama na sede da ONU para discutir assuntos de interesse mútuo.

O Irã também vem tendo uma relação complexa com o mundo árabe, com alianças com a Síria e bom relacionamento com Catar e Sudão.

Por outro lado, o país entrou em rota de colisão com os dois pesos-pesados Egito e Arábia Saudita - que temem um Irã nuclear e suas influências em países árabes.

Os Estados Unidos acusam o governo iraniano de financiar milícias xiitas no Iraque, além de armar o Hezbollah, no Líbano, e o palestino Hamas, na Faixa de Gaza.

Para o analista Bijan Khajehpour, Ahmadinejad também colocou o Irã numa situação de constrangimento, com discursos negando o Holocausto, que só pioraram a percepção da comunidade internacional sobre o Irã.

"Os candidatos terão que apresentar propostas para devolver o respeito internacional ao Irã, de um país formado por um povo com alto índice de educação e que se importa com suas democracia".

Leia mais sobre Irã

    Leia tudo sobre: irã

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG