Economia deve garantir reeleição de Cristina Kirchner na Argentina

Apesar de escândalos de corrupção, eleitor argentino prioriza a estabilidade econômica à transparência

Fernando de Dios, de Buenos Aires, especial para o iG |

No ato final de uma campanha sem emoções na quinta-feira, a presidente argentina, Cristina Fernandez de Kirchner, lembrou os sucessos de seu governo com a confiança de que só teria de esperar mais alguns dias para conquistar a reeleição que lhe garantirá mais um mandato de quatro anos. De acordo com as pesquisas, um em cada dois argentinos pode votar nela na votação presidencial de domingo.

AP
Pessoas são vistas sob faixa com retratos da presidente Cristina Kirchner, e seu marido morto, o ex-presidente Néstor Kirchner, enquanto esperam comício em Buenos Aires
Perante autoridades do governo, candidatos, 1,8 mil partidários (na maioria jovens) e toda a liturgia peronista, Cristina falou por quase meia hora no teatro Coliseo de Buenos Aires, onde mais uma vez defendeu o modelo econômico. "Pela primeira vez, e enfrentando a crise global, a Argentina está em uma posição que nos permite pensar em médio e longo prazo, algo que no país não tinha acontecido em muito tempo." Ela também recordou seu marido e antecessor, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), que morreu há quase um ano : “Vejo ele em todas partes, em especial no meus filhos.”

Para muitos analistas, é exatamente a situação econômica argentina que deve garantir sua reeleição. Gastando amplamente para encorajar o consumo e fazer com que a economia continue crescendo a quase 8% anualmente, o governo de Cristina diz ter reduzido o desemprego de 20% em 2003 para 7% atualmente, enquanto a pobreza teria dimuído de 54% para 8% neste ano.

“É muito difícil ganhar de um governo que teve oito anos de crescimento. Ninguém na oposição pode mostrar uma governança que se compare a essa”, disse Alberto Fernando Föhrig, professor de Metodologia de Análise Política da Universidade de San Andrés.

Mas Jorge Liotti, editor da seção política do jornal Perfil, crítico do governo K, não concorda totalmente com essa análise: “A população percebe uma estabilidade econômica relativa porque consegue comprar mais. O boom comercial só esconde as deficiências do modelo econômico, que se tornarão evidentes no futuro.”

O governo de Cristina foi alvo de vários escândalos de corrupção, mas nenhum deles afetou o oficialismo como aconteceu nos anos 1990, na época de Carlos Menem (1989-1999). De acordo com os analistas ouvidos pelo iG , o eleitor argentino prioriza a estabilidade econômica à transparência. Segundo eles, o rápido enriquecimento da família Kirchner em pouco tempo ou o uso de fundos públicos para a campanha não são mais importantes para os argentinos do que o bem-estar e a possibilidade de ficar longe da crise.

Campanha morna

A cidade de Buenos Aires não vive o típico clima pré-eleitoral. As ruas, antigamente lotadas de propaganda política, atualmente estão vazias. Os 38 pontos porcentuais de vantagem que Cristina Fernandez teve nas primárias de 14 de agosto sobre o segundo lugar, o candidato do Frente Amplio Progressista (FAP), Hermes Binner, prenunciaram como provável sua vitória nestes dois meses depois. De acordo com uma pesquisa da Poliarquía Consultores, entre 52% e 55% têm a intensão de votar na atual presidente.

A vitória é dada como certa até mesmo entre seus rivais, que na propaganda eleitoral pareceram indicar que sua disputa era pelo segundo lugar , e não para derrotar Cristina. “Sou Ricardo Alfonsín e quero falar com senhora, presidente. Provavelmente a senhora ganhará as próximas eleições”, disse em sua campanha na TV o candidato da sublegenda Udeso (União para o Desenvolvimento Social), filho do ex-presidente Raul Alfonsín (1983-1989).

“Se todos os integrantes da oposição tivessem se unido, poderiam ter melhores índices, mas jamais conseguiríamos ganhar a votação presidencial”, afirmou Hernán Rossi, que no domingo tentará uma vaga na Câmara de Deputados pela Udeso. "No nosso partido, acreditamos que não é bom fazer alianças somente para as eleições, porque depois teríamos de governar com todas as diferenças."

Para os governistas, a oposição falhou pela falta de ideias e de conteúdo ideológico ou partidário nas propostas de governo. “O único projeto que existe é o de Cristina. Os outros não têm consistência nenhuma e, por isso, nem conseguem confrontar. É por isso que a presidente não precisa discutir nem contestar os ataques. As alternativas não têm uma estrutura ideológica que as sustentem”, concluiu o deputado peronista da FPV (Frente Para a Vitoria) Jorge Landau.

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