E tome e coma crise

Só se fala em crise. Eu também, apesar de sereno, nas últimas semanas, não vou ficar aqui olhando.

BBC Brasil |

Também insisto em fazer parte da crise. Crise de crédito, crise de linhas aéreas falindo, crise de bancos (até de jardim) falindo, crise no mercado de ações, crise no partido Labour, crise disso e crise daquilo outro. Ninguém escapa à crise, quando ela cisma de pegar.

Nem mesmo Sua Majestade, a Rainha Elizabeth, está isenta. Vejam vocês, sua lista de posses desvaloriza a olhos vistos (na moita, mas vistos). As jóias, os vestidos, todos aqueles penduricalhos não pertencem a ela. São patrimônio da nação. Deve estar tudo em crise também.

Desvalorizando no mercado. O principal, o ouro, por assim dizer, no entanto, está em suas propriedades. Peguem o palácio de Buckingham. Ou melhor, passem perto para tirar fotografia por volta do meio-dia, quando da mudança da guarda. Dêem uma olhada. Bonitão, né? Pois por dentro, é muito mais jóia, lato sensu. Botaram pra quebrar em matéria de luxo e esplendor.

Pois bem. Há menos de um ano a residência londrina palaciana em questão estava orçada em perto de 57 milhões de libras, ou seja, 114 milhões de dólares, já que a libra, então, andava, claro, em crise também, lá embaixo.

Agora, que a moeda melhorou um pouquinho e a crise passou para o dólar e o euro, foram fazer nova avaliação. Quem? A Zoopla, que é um website especializado em propriedades. O palácio de Buckingham desvalorizou. Com todos seus 52 aposentos em 16 hectares da zona central de Londres. Coitada da Rainha. Pelo menos não ficou detida na Turquia devido à falência de uma linha aérea de transportes a preços populares.

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Brócoli. Ou brócolos, e ainda brocos (mas não de Carnaval), como querem nossos avozinhos, os portugueses, segundo o dicionário Houaiss. De preferência, com um azeitinho, queijo parmesão e uns bons dentes de alho.

Dizer que o controvertido vegetal está em crise é exagerar um pouco. O brócolis, ou os brócolos e brocos, sempre estiveram em crise. Principalmente quando se tem menos de 16 anos e o papai e a mamãe insiste em que se é para comer todinho e não deixar nada no prato. "É bom para você, menino. Mais tarde você nos agradecerá", diz o casal em uníssono. Pouco provável chegar o dia desse "obrigado".

Brócolis (simplifiquemos) é fogo. Ninguém gosta. Pelo menos um presidente da república dos Estados Unidos, George Bush pai, se pronunciou oficialmente, em uma de suas poucas perorações diante da imprensa, contra a verdura em questão. Poucas declarações de Bush pai fizeram maior sucesso, garantindo seu lugar na história, ao lado de "Ich bin ein Berliner", do Kennedy, ou "Nada temos a temer a não ser o próprio temor", do Franklin Delano Roosevelt.

O brócolis (soa mal paca, verdade?), vendendo ou forçando saúde goela abaixo, está em crise ligeiramente maior do que a habitual. Uma pesquisa fidedigna garante que, na cesta de compras britânica, o brócolis foi um dos poucos itens a cair de preço, de um ano para cá.

Brócolis: bom para a saúde, bom para a carteira. Mesmo assim, ninguém quer saber dele. Com toda sua pujança na proteção do pulmão dos fumantes, conforme a própria BBC Brasil noticiou esta semana mesma, na luta contra o câncer e na redução da possibilidade de um enfarto, o brócolis não está com nada. Apesar de estar com tudo no setor de betacaroteno, da vitamina C e do ácido fólico.

Não bastasse, aqui, no Reino Unido, com seu clima incerto e mais para o úmido, ele floresce - brócolis floresce? Jura? - com a maior naturalidade.

Apesar de tudo, ninguém nesta terra sabe cozinhar brócolis. Segundo respeitáveis estudos. O tipo exótico de couve, que já não é muito popular entre as diversas camadas da população, sofre além do mais como o quê nas mãos inábeis das donas de casa britânicas. Nunca vem no ponto, al dente. Sempre, sempre beirando uma sopinha odiosa, apesar de todo coentro e alho que puserem.

Encerremos com outro presidente norte-americano, esse também controverso, porém amigo do brócolis. Bill Clinton. Sempre jurou em cima de sete bíblias que sua receita para enchilada de galinha com brócoli era insuperável. Clinton, no entanto, jurou muito coisa em cima de bíblias. Remember Monica Lewinsky.

Mas, se formos consultar os devidos alfarrábios e dar uma puxada pela memória, veremos que tanto Bush pai quanto Clinton eram danados para contar mal, mas muito mal mesmo, uma história.

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Em nossa próxima edição: a crise do inhame.

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