Dois anos após terremoto, construção de novo Haiti continua no papel

Apenas metade da ajuda prometida foi gasta, só 4 dos 10 maiores projetos foram iniciados e meio milhão de pessoas ainda vive em acampamentos

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Os bilhões de dólares em auxílio que voaram para o Haiti depois do terremoto destruidor de janeiro de 2010 tinham o objetivo de construir uma nova nação com fazendas prósperas, fábricas ornamentadas, hospitais modernos e rodovias pavimentadas na área rural.

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Camisa de operário é vista em local de construção de casas para pessoas desalojadas pelo terremoto de 2010 nos arredores de Porto Príncipe, Haiti (09/01)
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Planos ambiciosos pediram por US$ 500 milhões para reconstruir 50 novas escolas, por US$ 200 milhões para dar a Porto Príncipe sua primeira instalação de tratamento de água e por US$ 224 milhões para criar um parque industrial para 65 mil operários da indústria do vestuário - todos com o objetivo de depositar as fundações para um novo Haiti.

Mas enquanto o país mais pobre das Américas marca o segundo aniversário do terremoto que deixou cerca de 300 mil mortos, apenas metade dos US$ 4,6 bilhões prometidos foi gasta. Meio milhão ainda vive em acampamentos lotados. E apenas quatro dos dez maiores projetos fundados por doadores internacionais foram iniciados.

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As previsões otimistas feitas logo depois do tremor de "reconstruir melhor" tornaram-se mais difíceis de alcançar do que o imaginado. Os esforços de reconstrução foram atrapalhados pelos mesmos problemas que empobreceram o Haiti em primeiro lugar: a crônica instabilidade política, a falta de um robusto governo central e uma infraestrutura trepidante em uma nação onde, antes mesmo do terremoto, metade das crianças não ia à escola e mais da metade da população estava desempregada.

O ex-presidente dos EUA Bill Clinton (1993-2001), enviado especial da ONU para o Haiti, disse em uma entrevista na quarta-feira que a realidade do Haiti e sua história complicada tornavam difícil a reconstrução como esperada. "Tínhamos grandes problemas no Haiti antes do terremoto", disse Clinton. "Em muitos momentos não tentávamos reconstruir. Na verdade, tentávamos fazer direito da primeira vez."

O presidente do Haiti, Michel Martelly, também reconheceu que as conquistas não corresponderam às expectativas, descrevendo o progresso alcançado até agora como "definitivamente não suficiente" em uma entrevista à BBC.

"Mas ultimamente, desde que assumi o poder, direi que mostramos fortes sinais de que as coisas estão mudando e se movendo no Haiti", disse o presidente, que assumiu em maio e cujas disputas com o Parlamento contribuíram para os atrasos.

O governo anterior do presidente René Préval foi prejudicado pelo colapso de construções do governo e mostrou pouca liderança depois da tragédia. A eleição que levou Martelly ao poder foi manchada com irregularidades e tumultos que paralisaram a capital. O inexperiente presidente precisou de seis meses para empossar um primeiro-ministro porque os legisladores rejeitaram suas duas escolhas iniciais.

Contra esse pano de fundo estavam as altas expectativas cultivadas pelos parceiros internacionais, incluindo Clinton, que prometeram que o Haiti não renasceria como a mesma nação sitiada. Em vez disso, os setores de educação, saúde, energia e toda a infraestrutura seriam todos aprimorados, como começar um país do zero.

O governo de Martelly, um ex-músico, está cheio de ambição. Seu primeiro-ministro, Garry Conille , disse ao Parlamento na segunda-feira que o governo quer matricular mais 1 milhão de crianças na escola neste ano, plantar árvores para pôr fim a décadas de desmatamento e melhorar a assistência à saúde. Conille chama 2012 de "um ano da construção".

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Jovem caminha dentro de catedral danificada por terremoto em Porto Príncipe, Haiti (07/01)
Mas os esforços para criar um novo país até agora desembocaram na frustração. Legisladores reclamaram ter testemunhado pouca coisa acontecendo. Moradores dos acampamentos protestaram contra a falta de habitação e contra os despejos que os forçaram a ir a outros lugares. Outros estão exasperados com os novos bilhões de dólares em auxílio que rendem poucos resultados visíveis - grandes ou pequenos.

Nicolas Pierre, um produtor agrícola de 55 anos nas montanhas nubladas acima de Porto Príncipe, ainda espera que o presidente cumpra sua promessa de transporte gratuito para os estudantes. "Martelly não enviou os ônibus gratuitos para aqui", disse Pierre. "Temos de carregar as crianças na lama."

Os dez maiores projetos financiados pelo exterior e aprovados pela Comissão Interina de Recuperação do Haiti (IHRC, na sigla em inglês) são ambiciosos e complicados. Envolvem múltiplos parceiros, requerem licitações para os contratos e abrangem necessidades que vão da criação de empregos e saúde à energia, saneamento e educação. Serão necessários vários anos para que sejam finalizados.

"A reconstrução não é igual ao trabalho humanitário, que precisa ser feito rapidamente", disse Diego Osorio, do Fundo de Reconstrução do Haiti, que ajudou a financiar os projetos aprovados pela IHRC. "Os projetos de reconstrução requerem planejamento e suas realizações não serão visíveis no dia a dia."

Mas mesmo o planejamento vem sofrendo. A comissão de recuperação copresidida por Clinton foi estabelecida para assegurar aos doadores internacionais que seu dinheiro não seria desperdiçado. O painel ajudou a coordenar projetos multimilionários de uma forma relativamente transparente e para evitar duplicação.

Mas em outubro o mandato de 18 meses da comissão acabou, suspendendo o trabalho em projetos futuros, porque legisladores da oposição não atuaram em um pedido de Martelly para renovar o mandato por mais 12 meses.

Até agora, o maior projeto terminado é uma universidade de primeira linha de US$ 30 milhões no norte do Haiti construída pelos dominicanos. O campus tem 72 salas de aula, laboratórios de ciências e de computação e uma biblioteca para até 10 mil estudantes.

Outro projeto em andamento é o mais ambicioso dos EUA. Orçado em US$ 224 milhões, o parque industrial de Caracol é montado enquanto as escavadeiras limpam um campo gerenciado pela fabricante de vestuário sul-coreana Sae-A Trading Co. Ltd. Espera-se que o projeto leve 65 mil trabalhos para um área remota ao redor da segunda maior cidade do Haiti, Cap-Haitien, com o primeiro lote de camisetas programado para produção até setembro.

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Um acampamento é visto perto de Porto Príncipe dois anos depois do terremoto do Haiti (12/01)
Mas a maioria dos projetos está atrasada por problemas que vão da inabilidade de garantir financiamento às disputas de terra. Mas Clinton disse que, apesar de devagar, a reconstrução agora ganha impulso. "Há uma chance real de que, em cinco anos, eles estarão em uma situação melhor do que a de antes do terremoto", afirmou.

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