Documentos dos EUA revelam participação de Médici em queda de Allende

Washington, 17 ago (EFE).- Documentos revelados da Presidência de Richard Nixon nos Estados Unidos (1969-1974) indicam que o Brasil participou, com consentimento americano, da fraude eleitoral no Uruguai em 1971, e na preparação do golpe que derrubou Salvador Allende no Chile em 1973.

EFE |

Os textos, disponibilizados hoje no site dos Arquivos de Segurança Nacional, um grupo privado na Universidade George Washington, contam como Nixon e o ditador Emilio Garrastazu Médici debateram em dezembro de 1971 a forma de cooperar para derrubar o líder chileno Salvador Allende.

"Estes documentos demonstram por que os Estados Unidos enfrentam uma montanha de desconfiança em sua política em direção à América Latina", disse à Agência Efe Kevin Casas Zamora, um especialista de política externa no Instituto Brookings, com sede em Washington.

"Os críticos aos Estados Unidos utilizarão isto no debate, por exemplo, do caso de Honduras", afirmou, em referência à deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya.

"Eu não acho que os Estados Unidos intervirão agora como ocorreu naqueles tempos", disse.

A documentação revelada e publicada pelos Arquivos inclui um memorando do Departamento de Estado americano, datado de 9 de dezembro de 1971, sobre a reunião na Casa Branca de Médici e Nixon.

Na reunião, o presidente americano perguntou ao general sua opinião sobre a situação no Chile, onde um ano antes o Allende tinha iniciado sua gestão, e, segundo o documento do departamento, Médici "disse que Allende seria derrubado".

"Nixon perguntou se Médici pensava que as Forças Armadas chilenas eram capazes de derrubar Allende, e Médici respondeu que achava que sim, que eram capazes, e acrescentou que o Brasil estava trocando muitos oficiais com os chilenos, e deixou claro que o Brasil trabalhava com esse fim", informou o documento.

Outro escrito, da Casa Branca e divulgado pelos Arquivos de Segurança Nacional, se refere a "uma reunião privada" do presidente americano com o então primeiro-ministro do Reino Unido Edward Heath em 20 de dezembro de 1971, durante a qual os governantes falaram sobre diversos assuntos.

Heath, segundo o documento, perguntou a Nixon sobre a situação em Cuba.

"Esse tipo, (Fidel) Castro, é um radical", respondeu Nixon.

"Extremista demais ainda para Allende e (os militares que governavam) o Peru".

"Nossa posição tem o apoio do Brasil que, acima de tudo, é a chave para o futuro", acrescentou Nixon segundo o texto.

No encontro, Nixon também afirmou que "os brasileiros ajudaram a 'regular' as eleições uruguaias".

Nas eleições de novembro de 1971, a primeira na história do Uruguai em que uma coalizão de esquerda representou um desafio substancial aos dois partidos que tinham governado o país por mais de 150 anos, após uma apuração confusa, emergiu como ganhador Juan María Bordaberry.

Menos de dois anos depois, Bordaberry fechou o Parlamento, ilegalizou partidos políticos e sindicatos e iniciou uma ditadura que duraria 12 anos.

Já em 1972, de acordo com um Panorama Nacional de Inteligência - uma avaliação periódica que as agências de espionagem apresentam ao Governo americano -, outro documento dizia que o "Brasil desempenha um papel maior nos assuntos americanos e procura preencher qualquer vazio deixado pelos Estados Unidos".

"É pouco provável que o Brasil intervenha abertamente nos assuntos internos de seus vizinhos", acrescenta o documento.

"Mas o regime não se absteria de usar a ameaça de intervenção ou os instrumentos de diplomacia e a ação clandestina para se opor aos regimes esquerdistas, ou para ajudar a instaurá-los em países como Bolívia e Uruguai", acrescenta.

Para o diretor dos Arquivos, Peter Kornbluh, estes documentos que foram divulgados "revelam um capítulo oculto de intervenção" brasileira.

Em entrevista ao "New York Times", ele pediu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para publicar os arquivos do período militar brasileiro, o que permitiria obter mais informação sobre a participação dos ditadores nestas tramas.

O diretor do Diálogo Interamericano, Michael Shifter, disse ao jornal que os documentos "indicam que Washington recorreu a extremos nesse período para combater o que se percebia como ameaça comunista em seu quintal de trás".

Kevin Casas Zamora disse que, atualmente, o Governo do presidente Barack Obama "mostra um interesse claro em lavar as mãos, e salvo em aspectos muito específicos deixará que os latino-americanos resolvam seus problemas".

"O que interessa a Washington agora é a relação bilateral com México e Brasil, e que a Venezuela siga enviando petróleo", disse.

EFE jab/db

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