Do leite e de quem o dá

Taí, não me lembrava. Mas o leite humano, com ênfase no feminino, tem ao que parece um gostinho que lembra vagamente o suco de melancia.

BBC Brasil |

Li no jornal que essa comparação surgiu pela primeira vez naquela falecida série de Friends, que nós, brasileiros, nos habituamos a chamar de "sitcom".

Tudo isso porque agora, não bastasse a crise financeira global, o mundo resolveu se dividir entre aqueles para quem o leite humano, esse humano leite, em nada difere, em seu sabor e consistência, do leite de nossas irmãs, as vaquinhas - a pastar nos bucólicos e verdes campos britânicos de nossa imaginação e mesmo, quiçá, da realidade em torno de todos nós. Essa metade do mundo acha que não tem nada demais beber do leite de nossos, ou melhor, nossas semelhantes.

A outra metade do mundo não pede perdão e comparece aos verdes campos discordando nada bucolicamente. De jeito nenhum, o leite humano, mesmo o da mulher amada, seja mãe da gente ou mera conhecida, é um horror. Pior que suco de jiló. Que não foi dito em Friends.

Uma jornalista televisiva britânica, Kate Garraway, há coisa de um mês, do macio de seu sofá diurno, sugeriu para seus milhões de telespectadores que todas as mulheres deveriam dar de mamar aos filhos e filhas de outras mulheres.

Não parou aí a controversa Kate. Foi mais além um pouco. Disse que também as mulheres deveriam dar de mamar umas às outras. Deu no jornal. Deu e gerou animada discussão. Pois esta a missão dos programas em que senhoras e senhoritas, de tarde, sentadinhas em confortáveis sofás, sugerem controvérsias para a humanidade ter algo a fazer que não seja ficar jogando pedra uns nos outros e, principalmente, umas nas outras. Que dêem de mamar umas às outras, segundo a bela e doce Kate.

Há sempre um grupo em ação no Reino Unido. Ação para tudo. Contra, a favor, para cima do muro. O importante é agir e virar sigla. Há um grupo chamado PETA (People for The Ethical Treatment of Animals) Isso, gente a favor do tratamento ético de animais.

O PETA é zeloso. Não mexam com os direitos animais. De qualquer animal. Inclusive, e talvez principalmente, de vaquinha bucólicas pastando em verdes campos britânicos. O PETA pegou o pião na unha, para usar de uma analogia das mais inadequadas para o caso.

O PETA pediu inclusive àquela gente boa que produz os sorvetes Ben & Jerry, muito vendidos aqui e nos Estados Unidos, que passasse a utilizar do leite de proveniência mamária humana em vez do leite dessas vaquinhas que eu não consigo parar de chamar de "bucólicas" ou botá-las para pastar em "verdes campos do Reino Unido".

Ben & Jerry, como todos aqui e nos EUA sabem, gostam de novidades em sabores e de dar nomes ditos "engraçadinhos" aos sabores. "Cherry Garcia", "Chunky Monkey" e outras intraduzibilidades. Estão, tanto o Ben quanto o Jerry, em cima do proverbial muro. Ouvindo atentos à algazarra. Esperando a hora de dar o bote comercial.

Tracy Reisman, porta-voz do PETA, portou sua voz e pronunciou em alto e bom som, e tipo tamanho 12 nos jornais de boa índole: "Se eles, o Ben e o Jerry, substituíssem o leite de vaca (bucólica, pastando etc) pelo leite das mulheres, tudo mundo sairia ganhando".

Inclusive as vaquinhas (de novo: bucólicas, pastando etc), acrescentou ela. Juro.

A Suíça, onde, ao que tudo indica a crise financeira ainda não chegou, resolveu entrar no papo de sofá de programa feminino de quatro horas da tarde. Um restaurateur tentou introduzir o leite humano em algumas de suas receitas.

Ninguém reclamou. Assim como não se sabe se alguém foi lá e provou. A verdade é que não há legislação na União Européia que proíba o leite de mulher, amada ou desamada, na preparação de pratos ou produtos alimentícios.

Rolf Etter, do laboratório de controle de alimentos de Zurique, elucidou. Disse ele:"O leite humano não está na lista de espécies proibidas de ceder seu leite para o consumo também humano. Macacos e primatas estão proibidos. Mulher, não".

Portanto, agora já se sabe: macaco, esse nada bucólico primata, não pode. Mulher? Tudo bem. Sabe-se também que o tal grupo ou sociedade, PETA, defende de tudo quanto é jeito a não-ordenhação das vaquinhas. Aquelas bucólicas, em verdes campos idem. Tadinhas.

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