Do jardim à caçarola

Caius Apicius. Madri, 2 dez (EFE).- O homem sentiu, desde sempre, fascinação pelas aves; talvez pelo fato de voar, pela beleza de muitas delas, pelo canto de outras, mas nenhuma destas qualidades evitou que muitas delas percorressem um caminho praticamente sem retorno: da selva ou floresta para o jardim, e deste à caçarola.

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É certo que algumas voltaram da última etapa. Por exemplo, o cisne. Ou o peru real. Na Idade Média se servia cisne assado. Os melômanos lembrarão a lamentação de um cisne nesse estado, já na mesa, em "Carmina Burana". Assim como o peru real, pois nos livros de receitas europeus anteriores ao século XVI aparecem receitas para o peru... que não era, certamente, o peru comum, que vivia mais ou menos tranquilo no que hoje é a América, mas o peru real, cuja beleza não livrava do assador, ao contrário: os cozinheiros eram hábeis para levá-lo à mesa. A chegada à Europa do peru americano devolveu o real aos jardins.

Um ave belíssima: o faisão. Contam que Creso, rei de Lidia, perguntou ao filósofo Solón se tinha visto algo mais belo que seu trono, ao que o sábio respondeu: "Senhor, vi os faisões na floresta..." O faisão é uma ave originária da Cólquida, uma das duas partes da então divisão, pelos gregos, do que hoje é a Geórgia, concretamente a região ribeirinha do Ponto Euxino, hoje Mar Negro.

Até ali foram Jasón e os argonautas à procura do velo de ouro; parece ser lá pelo século XIII antes de Cristo. Levaram o velo de ouro, a Medéia, que no final saiu rã, e o faisão, uma das aves que mais justificam o caráter de ornamental: pois é... nem assim evitaram a caçarola.

O faisão era prato importante nas cortes europeias medievais, especialmente na Borgonha, onde acontecia o famoso "voto do faisão", cerimônia na qual os cavalheiros prometiam à Virgem Maria, aos jogos de damas e ao faisão realizar tais ou quais façanhas. A desgraça, para o faisão, é que ao contrário do cisne ou do peru real... está muito bom.

As galinhas procedem de Bengala, e chegaram à Grécia lá pelo século IV antes de Cristo. Um século depois eram conhecidas já em Roma, onde foram tratadas, a princípio, como aves de adorno; há raças de galinha muito decorativas, é verdade. Seja como ornamento, seja como aves de briga, as galinhas e os galos adquiriram em breve um alto preço em Roma. Mas os romanos quiseram saber qual era o sabor... e as galinhas iniciaram sua permanente marcha rumo às caçarolas e assadeiras. Com elas, seus filhos, os frangos. Mas começaram seu caminho europeu como adorno de jardins.

Assim como a representante africana, a galinha da Angola. Os gregos a conheceram e a consideraram um dom de Artêmis; os romanos a apreciaram; mas, lá pelo século V de nossa era, desapareceram da Europa as galinhas da Angola domésticas, para não voltar até que os portugueses as reencontraram na África, já no final do século XV.

Voltaram assim à Europa, onde foram destinadas aos jardins - eu me lembro de ter visto galinhas da Angola em algum jardim, quando era criança -, e ao Brasil. Hoje, as pintadas terminam também na caçarola.

O peru americano não teve sua etapa jardineira: foi direto para a cozinha. E há raças de patos, e de pombas, que são frequentes nos parques, mas que não costumam ser comidos. Já veem que o ser "flor de plumas ou ramalhete com asas", que dizia Segismundo em "A vida é sonho", não livrou a muitíssimas aves desse trágico destino que expressa o velho dito castelhano de: "ave que voa... à caçarola". E embora não voe, me temo. EFE cah/fm

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