O novo presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, tomou posse nesta quarta-feira prometendo mais liberdade, mas deverá dividir o poder com seu antecessor Vladimir Putin, que manterá amplas prerrogativas como primeiro-ministro do país.

Após ter jurado sobre a Constituição "defender as liberdades" e "servir fielmente ao povo", durante uma grande cerimônia no Kremlin, Dmitri Medvedev pediu o "fim do niilismo jurídico", em outros termos, da corrupção que mina o país.

"O maior desafio é o desenvolvimento das liberdades cívicas e econômicas, a criação de novas possibilidades para a auto-realização dos cidadãos, dos cidadãos livres e responsáveis", acrescentou em um discurso de tom liberal.

Aos 42 anos, Dmitri Medvedev se torna o terceiro e mais jovem presidente da Rússia, depois de Boris Yeltsin (1991-1999) e Vladimir Putin (2000-2008), representando a chegada ao poder de uma nova geração que começou a atuar no país após a queda da União Soviética.

Tomando a palavra, Vladimir Putin, que manterá sua influência no posto de primeiro-ministro, ressaltou que continuará a "cuidar da Rússia".

"Houve erros (...) Mas conseguimos realizar uma mudança (...) É importante manter a política que foi iniciada e justificá-la", disse apresentando o balanço de sua presidência.

Depois do final da cerimônia de posse, o novo presidente indicou seu antecessor e mentor como primeiro-ministro. O Parlamento deve aprovar sem grande suspense na quinta-feira a indicação.

Dmitri Medvedev também recebeu os códigos da pasta executiva nuclear do poderoso arsenal estratégico russo e assinou seus primeiros decretos, relativos à demissão do primeiro-ministro Viktor Zubkov e à concessão de moradias aos veteranos da Segunda Guerra Mundial.

O novo gabinete vai enfrentar rapidamente seu primeiro batismo de fogo, no momento em que a inflação atinge 14%, o que diminui o poder de compra em um país onde a renda média é de 16.000 rublos (440 euros).

Seguindo um ritual minuciosamente organizado, Dmitri Medvedev chegou ao Grande Palácio do Kremlin às 12h00 em ponto e depois subiu solenemente a escadaria de honra da mesma forma que Vladimir Putin em 2000.

Uma porta dourada então se abriu para o novo presidente, que seguiu seu caminho sobre um interminável tapete vermelho, sob o foco das câmeras que realizavam tomadas que faziam da transmissão ao vivo do evento uma cerimônia quase sagrada.

Por força de seus poderes constitucionais, Dmitri Medvedev se torna o novo comandante-em-chefe supremo das Forças Armadas e o chefe da política externa.

No entanto, o futuro primeiro-ministro Putin terá forte controle sobre a política econômica, além do gás e do petróleo, grandes combustíveis da nova potência russa.

Ao contrário dos chefes de Governo anteriores, totalmente subordinados ao Kremlin, Vladimir Putin disporá também de grandes poderes pessoais como líder do partido Rússia Unida, que tem maioria de dois terços no Parlamento.

Após a posse, Medvedev prometeu desenvolver as "relações de confiança" entre o Estado e a Igreja Ortodoxa, em uma cerimônia com Alexis II, o Patriarca de todas as Rússias.

"As relações particulares de confiança que existem serão mantidas e vão se desenvolver pelo bem da pátria", declarou Medvedev.

Alexis II destacou que a Igreja está "disposta a continuar a cooperação porque temos a mesma pátria, a mesma história, o mesmo futuro".

O Patriarca oficiou um serviço religioso para Medvedev e sua esposa Svetlana na catedral da Anunciação, no perímetro do Kremlin, ao fim de sua cerimônia de posse.

Dmitri Medvedev foi eleito no dia 2 de março, sem fortes concorrentes, com 70% dos votos após ter feito campanha com base no tema da "continuidade" da política de Vladimir Putin.

Um governo que pode ser resumido em dois cenários: o retorno à estabilidade, após o caos econômico dos anos Yeltsin e duas guerras na Chechênia, e o retrocesso das liberdades.

"Definitivamente, os espaços de liberdade diminuíram e o partido Rússia Unida se tornou a pior cópia do Partido Comunista que poderíamos imaginar", criticou nesta quarta-feira o ex-presidente Mikhail Gorbachev em entrevista concedida ao jornal francês La Croix.

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush se declarou ansioso para trabalhar com Medvedev.

"Estou certo de que o presidente ligará para o presidente Medvedev nos próximos dias para felicitá-lo", disse o porta-voz da Casa Branca, Gordon Johndroe.

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