Divisão política leva Tailândia a crise crônica

Gaspar Ruiz-Canela. Bangcoc, 20 dez (EFE).- A divisão política levou a Tailândia a uma crise crônica este ano, quando teve quatro primeiros-ministros, a sede governamental tomada por manifestantes durante 193 dias, os aeroportos de Bangcoc fechados e três partidos-chave dissolvidos.

EFE |

Dois anos depois da revolta militar que depôs o mais controvertido primeiro-ministro da história recente do país, Thaksin Shinawatra, a Tailândia virou cenário de uma batalha entre os partidários e os detratores do líder.

De um lado, os políticos com interesses em grandes negócios que conseguem os votos do meio rural, que, por sua vez, apóia Shinawatra. Do outro, membros da elite urbana etiquetados como democratas, monárquicos e que recebem suporte de muitos militares.

Aberta de novo a brecha, milhares de manifestantes foram às ruas de Bangcoc cinco meses depois que os políticos partidários de Shinawatra formassem um Governo, respaldados na vitória nas eleições legislativas de 23 de dezembro de 2007.

"Os mais de cinco anos que Shinawatra governou (2001-2006) supuseram uma mudança completa do panorama político", assinalou Ji Ungpakorn, professor de ciências políticas da Universidade de Chulalongkorn, em Bangcoc.

Os protestos ampliaram os rumores de um novo levante, amedrontaram os investidores e culminaram com a tomada de assalto do palácio do Governo, em 26 de agosto.

Como foi feito contra Shinawatra em 2006 antes do levantamento, a Aliança do Povo pela Democracia (APD) não se assustou quando foi declarado o estado de exceção em Bangcoc e manteve a pressão com o primeiro dos quatro chefes de Governo que a Tailândia teve este ano - o ultradireitista Samak Sundaravej, o que mais tempo ocupou o cargo.

Em 9 de setembro, o Tribunal Constitucional desabilitou Sundaravej por violar a Carta Magna ao cobrar de uma empresa privada para aparecer em um programa de televisão no qual falava de seus conhecimentos culinários.

O vice-primeiro-ministro primeiro, Somchai Wongsawat, cunhado de Shinawatra e parceiro de Sundaravej no Partido do Poder do Povo (PPP), assumiu suas funções e, em 17 de setembro, foi ratificado no cargo pelo Parlamento.

Shinawatra retornou à Tailândia em fevereiro do seu exílio voluntário, após o levante e voltou a deixar o país em agosto, antes que fosse preso por um dos casos de corrupção pendentes contra ele e que o magnata atribui à perseguição política.

Com a tensão a alta, o chefe do Exército, o general Anupong Paochinda, o mesmo que em 2006 derrubou Shinawatra, insistiu na neutralidade das Forças Armadas e resistiu às repetidas ordens do Governo para, primeiro, despejar os seguidores da APD da sede governamental, e depois, no final de novembro, dos aeroportos.

Segundo Thitinan Pongsudhirak, professor de ciências políticas, o objetivo dessas manifestações difere das organizadas décadas atrás, que em geral protestavam contra o intervencionismo dos militares na política.

"Os manifestantes tentam agora derrubar um Governo eleito de forma democrática, não um militar, acho que esta tendência é perigosa", advertiu Pongsudhirak.

Sem escritório para despachar com seu Gabinete, Wongsawat instalou seu quartel-general no velho aeroporto de Don Muang, cerca de 30 quilômetros ao norte da capital tailandesa, longe do acampamento montado pelos manifestantes no palácio do Governo, onde em algumas ocasiões agressões de supostos seguidores pró-governo causaram mortes e deixaram vários feridos.

Com ousadia e com Wongsawat no Peru para participar do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec), a APD tomou os dois aeroportos de Bangcoc, o moderno de Suvarnabhumi e Don Muang.

Em seu retorno, Wongsawat se entrincheirou na nortista cidade de Chiang Mai, reduto forte de seu partido, e tentou recuperar o controle da situação declarando estado de exceção em ambos os aeroportos, mas os corpos de segurança recusaram usar a força.

Em uma situação parecida à de setembro, o Tribunal Constitucional voltou a romper o impasse com sentenças por fraude eleitoral, que dissolveram os três principais partidos da coalizão governante e desabilitaram seus dirigentes de exercer funções públicas, incluindo Wongsawat, cujo mandato de 75 dias entrará para história tailandesa por ele nunca ter conseguido estrear seu escritório oficial.

Nesse mesmo dia, 2 de dezembro, a APD declarava vitória e anunciava o final dos protestos. O vice-primeiro-ministro Chaovarat Chanweerakul assumiu as rédeas do Governo.

Duas semanas mais tarde, o Parlamento elegia o líder do opositor Partido Democrata, Abhisit Vejjajiva, primeiro-ministro, dando uma aparente amenizada na tensão política tailandesa. EFE grc/rr

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