Dissidentes desafiam poder de Chávez em eleição regional

Além da tradicional oposição venezuelana, os candidatos alinhados com o governo do presidente Hugo Chávez terão de enfrentar a dissidência chavista nas eleições regionais do próximo domingo. Esta nova oposição pode representar uma ameaça à hegemonia do chavismo nos governos dos Estados e cidades do país.

BBC Brasil |

Um destes grupos, o Partido Pátria Para Todos (PPT), ex-chavista, descarta o adjetivo de dissidente e afirma que está à esquerda do governo. "Somos os rebeldes do chavismo", disse à BBC Brasil o deputado José Albornoz, secretário-geral do PPT.

O PPT e o Partido Comunista da Venezuela (PCV) foram chamados de "traidores" e "contra-revolucionários" pelo presidente venezuelano Hugo Chávez quando se recusaram a se aliar ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), agremiação criada por Chávez em 2007.

O momento de ruptura, porém, veio com as eleições regionais deste ano.

O PSUV realizou eleições primárias para eleger os candidatos do chavismo aos cargos de governadores e prefeitos, deixando de fora os militantes do PPT e PCV.

"Esse foi o principal motivo da dissidência, que é a novidade dessas eleições", afirmou à BBC Brasil o analista político Luis Lander, da direção da organização não-governamental Ojo Eleitoral.

O deputado José Albornoz argumenta que a unidade dos bolivarianos exigida por Chávez trouxe como conseqüência a exclusão deste grupos.

"Com a exclusão, se abriram outros espaços de participação para aqueles que, em um determinado momento, apoiaram a opção do bolivarianismo", afirmou.

Socialismo produtivo

Reuters
Chavez quer aprofundar revolução
Um dos lugares onde esta dissidência surgiu foi no Estado de Guárico, um dos principais produtores agropecuários do país.

O atual governador desse Estado, Eduardo Manuitt, não acatou a decisão do PSUV que apostou no ex-ministro de Comunicação, Willian Lara, e não em sua filha Lenny - como pretendia o governador - para representar a revolução bolivariana nas eleições para o governo.

Por desrespeitar a decisão do partido, Manuitt foi expulso do PSUV e se aliou ao PPT para lançar a candidatura da filha na esteira da dissidência chavista.

O deputado José Albornoz defende a decisão do governador explica que a candidatura de Lenny Manuitt defende "o socialismo produtivo".

"Temos uma nova visão sobre o socialismo produtivo, acreditamos que é importante manter alianças com produtores e com o capital nacional privado", afirmou.

Chávez acusa Manuitt de ser um latifundiário e de ter freado o processo de reforma agrária no Estado, uma das principais propostas do governo que ainda não foi concluída.

A disputa eleitoral nesse Estado está acirrada e os eleitores chavistas se dividiram em dois grupos: uma parte deve votar em William Lara, o candidato da "revolução", e outro grupo deve apostar em Lenny Manuitt, que pretende contar também com os votos dos chamados "ni-nis" (que não são partidários nem do governo, nem da oposição) para vencer a disputa do próximo domingo.

"Vamos ganhar e o presidente terá que negociar com a nova governadora, queira ou não", disse José Albornoz do PPT.

O historiador Steve Ellner explica que a decepção com as administrações locais pode incentivar o voto chavista nos candidatos dissidentes.

"Onde está a bonança petroleira? Muitos estão decepcionados, muitos chavistas admiram o discurso de Chávez, sua coragem, mas não vêem resultados concretos", afirma.

Feudos de Chávez

No Estado de Barinas a disputa é similar e envolve o feudo da família Chávez no Estado natal do presidente.

O PSUV decidiu indicar Adán, irmão de Chávez, para substituir o pai, Hugo de los Reyes Chávez, no governo do Estado Barinas. Outro irmão, Argenis, controla a prefeitura de Sabaneta.

O atual prefeito da capital, Julio César Reyes, porém, não acatou a decisão e decidiu romper com a unidade partidária para concorrer ao governo.

Reyes lançou uma candidatura independente ao governo, amparado na base chavista descontente com a gestão do atual governador e tem chances de vencer o pleito.

"Eleitos pela revolução"

Para o analista Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis, a possibilidade de poder votar sem favorecer diretamente à oposição pode atrair a um setor dentro do chavismo.

"O que não significa para os chavistas romper com o presidente", disse León à BBC Brasil.

Na opinião do historiador Steve Ellner, para evitar o "engano" de seus simpatizantes e que esses votos favoreçam aos candidatos que não são os "eleitos pela revolução", Chávez teria tomado à frente da campanha eleitoral.

"O presidente pretende deixar claro a seus simpatizantes que os dissidentes já não formam parte do chavismo", afirmou.

"Chávez é mais popular que qualquer candidato e ele aproveita essa popularidade para convencer os 3 milhões de chavistas que não votaram no ano passado a irem às urnas", acrescentou Ellner.

Os dissidentes também disputam as eleições nos Estados de Carabobo, Portuguesa, Trujillo, mas com possibilidades remotas de vitória.

O partido Podemos (social-democrata), que se afastou da base do governo no ano passado e se aliou à oposição tradicional do país, disputa os Estados Sucre e Aragua.

Até a semana passada, pesquisas de opinião apontavam uma vitória da oposição, incluindo os dissidentes, em entre cinco e oito Estados. Na reta final, porém, o panorama mudou e a disputa se acirrou.

"A partir dos resultados do domingo veremos se os dissidentes são um fenômeno político passageiro ou se poderão se consolidar como uma nova força política no país", afirmou Luis Lander, do Ojo Eleitoral.

Neste domingo, serão disputados os governos de 23 Estados do país e 328 prefeituras.

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