Disputa política espalha onda de crise na Argentina

Derrotado nas últimas eleições legislativas, o governo argentino trava uma queda de braço com produtores rurais e empresas de comunicação, em uma disputa política que tem provocado reflexos até mesmo no futebol. No cenário político, a presidente Cristina Kirchner registra os piores índices de popularidade desde que assumiu o poder, em dezembro de 2007.

BBC Brasil |

O reflexo imediato da imagem negativa do governo veio com a derrota nas urnas, em junho.

A poucos meses da posse do novo Congresso, onde o governo deixará de ser maioria, a presidente argentina tem corrido contra o relógio para tentar aprovar propostas polêmicas, que atingem principalmente produtores rurais e empresas como o Grupo Clarín - maior conglomerado de comunicação do país.

Segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil, disputas e crises políticas deste tipo costumam afetar de maneira significativa os outros setores da vida na Argentina.

"Na Argentina, a política é decisiva para definir o humor e o rumo dos demais setores", diz o sociólogo Ernesto Kritz, da Sel Consultores.

Um exemplo disso é o futebol. A disputa entre o governo e o grupo Clarín é um dos elementos que formam o pano de fundo para a decisão de Kirchner de assinar um convênio com a Associação de Futebol Argentino (AFA) que garante a transmissão dos jogos através do canal 7, emissora de televisão estatal.

Para fechar o acordo com o governo, a AFA rompeu o contrato com uma empresa do grupo Clarín, responsável pelas transmissões das partidas.

Gripe suína
Outro reflexo da disputa política foi a acusação da oposição de que o governo adiou o combate à gripe suína e demorou para divulgar dados sobre o avanço da doença pelo país para não sofrer um prejuízo ainda maior nas urnas durante as eleições de junho.

Um dos setores mais afetados pela gripe suína na Argentina foi o turismo, com uma redução drástica no desembarque de estrangeiros, principalmente em Buenos Aires e Bariloche.

"No fim, tudo se canaliza para o mesmo destino: a confiança ou desconfiança nas medidas do governo", afirma a cientista política Graciela Römer, da consultoria Römer e Associados.

Greve
No final de agosto, o Congresso Nacional, ainda com maioria governista, aprovou a prorrogação por um ano da lei de "faculdades delegadas", que autoriza o governo a adotar algumas medidas sem o aval do legislativo.

Com as "faculdades delegadas", o governo poderá determinar, por exemplo, o índice dos impostos às exportações do setor agropecuário. A aprovação do texto levou grupos de produtores a protestarem na porta do Congresso Nacional.

Na semana seguinte, a presidente vetou um projeto de lei, aprovado no Parlamento, que previa a redução de impostos para os distritos afetados pela recente e histórica seca. Minutos mais tarde, os líderes ruralistas anunciaram a paralisação do comércio de grãos e bovinos para exportações e para a industrialização durante uma semana.

"É a gota d'água", disse, ao comunicar a greve, Carlos Garetto, da Confederação Intercooperativa Argentina de Agropecuária (Coninagro, na sigla em espanhol).

A paralisação foi mais um episódio do embate entre o governo e os produtores rurais, que, no ano passado, quase pararam o país com bloqueios em estradas, que resultaram em desabastecimento.

Os bloqueios aconteceram pouco antes do auge da crise econômica mundial. Na ocasião, o protesto dos ruralistas era uma reação ao aumento dos impostos para as exportações, principalmente de soja.

Radiodifusão
Outra medida da presidente que gerou polêmicas foi o projeto de lei enviado ao Congresso Nacional que prevê uma nova arquitetura para o setor de radiodifusão.

O texto prevê uma revisão a cada dois anos das licenças para emissoras de rádio e televisão, determina que um terço do setor seja destinado a organizações sem fins lucrativos e impede que uma empresa de comunicação tenha mais de uma emissora de televisão a cabo, por exemplo.

"É claramente uma nova disputa com o grupo Clarín. E, se o texto for aprovado como está, o governo vai acabar controlando os meios de comunicação", diz o deputado Daniel Katz.

O líder do governo na Câmara dos Deputados, Agustín Rossi, da Frente para a Vitória, por outro lado, afirma que a nova lei "vai democratizar" os meios de comunicação no país.

"A lei atual de radiodifusão é dos tempos da ditadura, e é hora de modernizá-la", disse Rossi.

Já a deputada opositora Paula Bertol, da União-Pro, protestou contra o projeto. "A presidente deveria esperar a posse do novo Congresso para enviar este texto", disse.

"Esse assunto não se resolve de um dia para o outro e com um Congresso que está saindo."
O analista político Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, avalia que as próximas semanas podem ser "fundamentais" para que os argentinos percebam se o que vivem é uma "crise ou o caminho para um colapso", a partir da posse dos novos parlamentares.

Para Graciela Römer, da consultoria Römer e Associados, o impasse político na Argentina é o resultado de um coquetel que inclui a maquiagem dos dados oficiais, a estatização do setor de pensões e aposentadorias e um discurso de que o "governo é a pátria, e o resto está, no mínimo, fora de moda".

"E os argentinos cansaram disso, do tudo ou nada", afirma Römer.

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