Discussão sobre Itaipu marca último debate eleitoral no Paraguai

A polêmica em torno da hidrelétrica binacional de Itaipu marcou o último debate eleitoral no Paraguai antes das eleições presidenciais deste domingo.

BBC Brasil |

No encontro desta quinta-feira, promovido pela emissora de televisão Telefuturo na capital, Assunção, foi mostrada uma entrevista com o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Jorge Samek, explicando os valores pagos pela energia gerada pela usina.

As declarações de Samek foram o ponto de partida para a discussão sobre o assunto no debate conduzido pelo apresentador Humberto Rubín.

"É por isso que defendo a criação de uma comissão internacional para ver o acordo de Itaipu. São tantos números que é preciso criar uma base intelectual para esta discussão", disse a candidata governista, Blanca Ovelar, do Partido Colorado.

"Somos sócios do Brasil (em Itaipu), mas temos que rever essa sociedade, porque ela não nos atende", afirmou.

De acordo com os termos do Tratado de Itaipu, assinado entre Brasil e Paraguai em 1973, a energia gerada pela usina deve ser dividida igualmente entre os dois sócios.

Mas o Paraguai utiliza apenas cerca de 5% dessa energia, quantia que é suficiente para suprir 95% de sua demanda.

O excedente é vendido - a preço de custo - ao Brasil, onde 20% da energia elétrica consumida vem de Itaipu.

Segundo Ovelar, sua proposta é diferente da que é defendida pelo ex-bispo católico Fernando Lugo, candidato da Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol).

Lugo - que não compareceu ao debate - tem como uma das principais bandeiras de sua campanha a revisão do tratado e o aumento no preço que o Paraguai recebe pela energia que vende ao Brasil.

"Lugo está errado. Por que agredir o Brasil por causa de Itaipu? O Brasil será nosso vizinho sempre. Não podemos mudar de endereço", disse o candidato Pedro Fadul, do partido Patria Querida, quarto colocado nas pesquisas de opinião.

"Blanca, você fala em formar comissão. E nossos técnicos, que estão acompanhando Itaipu há mais de 30 anos? Não entendo como o governo (do qual Ovelar foi ministra da Educação) não tem dados claros sobre este acordo", afirmou Fadul.

O presidenciável Lino Oviedo, do Unace, disse, por sua vez, que é hora de parar de reclamar do tratado de Itaipu.

"Temos de ser pragmáticos. Até 2023 (quando termina o pagamento da dívida) não se pode mudar o contrato", disse Oviedo.

"Então, vamos aproveitar essa energia barata que temos aqui no Paraguai, graças a Itaipu, para produzir mais soja, mais algodão (...). Para melhorar nossa economia", disse.

Brasil na campanha
A discussão em torno do tratado de Itaipu não é o único assunto que coloca o Brasil em destaque nesta campanha eleitoral no Paraguai.

A forte presença de brasileiros na produção de soja e carne do Paraguai (estima-se que sejam 60% do total de produtores) é outro tema de destaque.

Outra reportagem mostrada durante o debate eleitoral afirma que 80% dos bosques do país "viraram" plantação de soja.

Uma das críticas à lavoura de soja, repetida em diferentes setores no Paraguai, é a de que não gera emprego para os paraguaios.

"Não adianta ficar culpando o Brasil, os outros. Nós é que temos que enfrentar e resolver nossos problemas", disse Fadul.

Na campanha eleitoral na TV, o Partido dos Trabalhadores do Paraguai pede o voto do eleitorado com a bandeira pelo fim do "imperialismo" do Brasil e dos Estados Unidos.

Mas, individualmente, quando questionados sobre o tema, os presidenciáveis paraguaios tendem a mostrar uma postura conciliadora, como disse um observador brasileiro.

Oviedo, por exemplo, costuma dizer que o Estado de Goiás, onde o forte é a agroindústria, deve ser o exemplo para seu país.

Ovelar tem repetido que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o mais "aberto" às demandas do país.

Lugo tem defendido uma revisão do contrato de Itaipu, mas sinaliza que a medida dificilmente seria feita de forma unilateral.

A presença do Brasil nesta campanha política incluiu o destaque para a quantidade crescente de paraguaias que atravessam a fronteira para ter um filho no Brasil ou na Argentina, onde, acreditam, podem ter mais oportunidades para elas e a família.

O último debate antes das eleições mostrou ainda uma reportagem com adolescentes que estudam em escolas no lado brasileiro da fronteira.

Depois de cantar o Hino Nacional brasileiro, elas responderam que não querem ser paraguaias.

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