Diretor brasileiro na FAO diz que fim da fome depende de decisão política

Manuel Fuentes. Santiago do Chile, 15 out (EFE).- O brasileiro José Graziano da Silva, representante para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), afirmou que acabar com a fome no mundo não é impossível, mas depende da decisão política dos governantes.

EFE |

Como exemplo comparativo, citou o plano do Governo dos Estados Unidos para salvar os bancos em dificuldades, lançado em tempo recorde e que prevê o gasto de 20 vezes mais o que seria consumido em uma iniciativa para acabar com a carência alimentar.

Segundo o criador do programa "Fome Zero", no mundo são produzidos hoje mais alimentos que o necessário.

"O problema é a dificuldade de acesso a eles, seja por causa das guerras e dos desastres naturais, ou porque sobem tanto de preço que muitas pessoas não podem comprá-los", disse Graziano em entrevista à Agência Efe.

Desde 2006, ano em que explodiu a chamada crise dos alimentos, Graziano está à frente do escritório regional da FAO para a América Latina e o Caribe.

Em 1946, Josué de Castro, outro brasileiro a presidir a FAO, defendia no livro "Geografia da Fome" que era possível viver em um mundo sem miséria nem desnutrição, o mesmo desejo que inspira a "Iniciativa América Latina e Caribe Sem Fome", impulsionada por este órgão da ONU.

"Este programa começou por causa de uma visita do presidente Lula à Guatemala em 2005, quando a FAO divulgou dados que davam conta de que a América Central estava retrocedendo no combate à desnutrição", explicou Graziano.

A meta fixada pela FAO na região foi "dobrar a aposta" e não só reduzir à metade a fome, como estipulam os Objetivos do Milênio, mas erradicá-la completamente.

"Somos um continente que produz e exporta alimentos, e deveríamos dar exemplo", ressaltou Graziano, que se mostrou moderadamente satisfeito com o que foi conseguido até agora.

"Já há cinco países na região (Argentina, Brasil, Equador, Guatemala e Venezuela) que têm leis que garantem o direito à alimentação de todos os seus cidadãos, leis que estabelecem programas para estimular o consumo e aumentar a produção", acrescentou ele.

O diretor regional enfatizou que "a fome é o primeiro motor de uma engrenagem que produz mais desigualdade e miséria", pois "uma criança com fome pode ir à escola, mas não vai aprender".

Para enfrentar este problema, vivido atualmente por mais de 50 milhões de pessoas na América Latina, "é preciso pão e cidadania": "Pão para quem não pode comprá-lo e cidadania para exercer o direito a uma alimentação digna e saudável", disse ele.

"É preciso fazer frente às emergências fortalecendo as redes de proteção social. Mas, ao mesmo tempo, é preciso vincular essas redes com programas de mudança estrutural", comentou Graziano.

Para o especialista, o problema é que, "na América Latina, um Governo novo chega e trata de parar tudo o que o anterior fez ".

"Até que não tenhamos leis que obriguem os Governos a aplicar programas de segurança alimentar, não vamos conseguir erradicar a fome", afirmou.

Apesar disso, tudo andava razoavelmente bem até 2006. A América Latina tinha conseguido tirar a fome de oito milhões de pessoas.

Porém, a crise alimentícia jogou por terra os esforços realizados desde 1990 e, em apenas dois anos, o número de pessoas na miséria aumentou em seis milhões.

"Agora temos que conseguir que (a cada ano) três milhões de pessoas deixem de passar fome para que os Objetivos do Milênio sejam alcançados na região", ressaltou Graziano, que reconheceu que "neste momento, com uma crise tão aguda, é muito difícil fazer previsões".

"Enquanto tivermos um crescimento positivo per capita, estaremos contribuindo para eliminar a fome, porque haverá mais renda e mais possibilidades", disse.

No entanto, o medo da FAO é que a recessão econômica bloqueie o acesso aos créditos, peça essencial no funcionamento do comércio mundial.

Caso os países latino-americanos importadores de alimentos e energia (os do Caribe e da América Central) não possam ter acesso a empréstimos, os exportadores (Argentina, Brasil, Venezuela e, em geral, toda a América do Sul) não poderão escoar seus produtos "e então haverá uma queda de preços muito forte".

Felizmente, as nações sul-americanas estão preparadas, já que, nos últimos anos, acumularam reservas em dólares e agora podem pegar créditos para a exportação e garantir o fluxo comercial, afirmou o funcionário da FAO.

Assim como o diretor-geral do órgão, o senegalês Jacques Diouf, Graziano chamou a atenção dos Governos de todo o mundo para a importância de os esforços na luta contra a fome serem intensificados.

É preciso aumentar o apoio internacional e que os países ricos apresentem mais recursos para o desenvolvimento, "mas a responsabilidade de acabar com a fome é dos Governos nacionais, que podem fazer mais do que estão fazendo", destacou.

Além disso, disse ele, erradicar a miséria de 850 milhões de pessoas em todo o planeta "não é só responsabilidade dos Governos, mas de toda a sociedade".

"A humanidade tem que fixar a meta de erradicar a fome e não aceitar conviver com ela como se fosse um fator natural", completou.

EFE mf/rb/sc

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG