Direita espanhola se prepara para garantir vitória histórica

De acordo com as pesquisas, o Partido Popular vai eleger entre 192 e 198 cadeiras, número muito superior à maioria absoluta

iG São Paulo |

EFE
Presidente espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, em foto tirada no dia 4 de novembro
A direita espanhola voltará quase com toda segurança ao poder, sete anos depois, nas eleições do próximo domingo. Para o Partido Socialista será uma derrota histórica, arrasado pelo desemprego e pela aplicação de políticas de austeridade contra a crise.

As dificuldades econômicas selaram o destino do presidente do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que desistiu de se candidatar para a votação do dia 20 de novembro e deixará o poder ao final de seu segundo mandato.

Cerca de 36 milhões de eleitores vão às urnas para eleger o novo governo e, segundo todas as pesquisas de opinião realizadas no país, uma ampla maioria dará seu voto ao conservador Partido Popular (PP), encabeçado por Mariano Rajoy , que tenta pela terceira vez, se eleger ao cargo.

Leia também: Favorito, Rajoy usa perseverança como arma eleitoral

De acordo com as sondagens publicadas no domingo pelos principais jornais espanhóis, as últimas antes das eleições, o PP elegerá entre 192 e 198 candidatos, número muito superior aos 176 que marcam a maioria absoluta no Congresso, a câmara baixa do parlamento espanhol. Se as previsões forem concretizadas, será o maior número de cadeiras conquistadas pelo partido desde o retorno da democracia.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), no poder desde 2004, e seu candidato, o ex-número dois do Poder Executivo, Alfredo Pérez Rubalcaba , podem acusar o desgaste de três anos de duração da crise pelo pior resultado desde a volta da democracia.

Leia também: Candidato de Zapatero é conhecido como homem de missões delicadas

A crise, nascida da conjunção da explosão da bolha imobiliária com a crise financeira em 2008, que já deixou quase cinco milhões de desempregados, a metade, jovens, parece ter sido um golpe forte demais para o governo de Zapatero, obrigado a adiantar as eleições , de março de 2012 para novembro. "O Partido Socialista calculou que quando chegasse o momento das eleições o desemprego iria pelo menos parar, o que não aconteceu. Este foi um dado fundamental para o voto", considera o professor de ciências políticas da Universidade Autônoma de Madri, Fernando Vallespín.

Para o analista, "a grande falha desse governo foi tomar medidas tardiamente" frente uma crise que não parece entender de ideologias políticas e que já derrubou os governos da Grécia e da Itália. "Essa crise devora quem governa, sejam eles de direita ou de esquerda", afirma o professor de ciências políticas da Universidade de Santiago de Compostela, Antón Losada.

O anúncio da retirada de Zapatero da disputa não evitou que o PSOE sofresse uma derrota histórica nas eleições municipais e regionais em redutos tradicionais como Extremadura e Castilla-La Mancha, ou nas prefeituras de Barcelona e Sevilha.

Assim, os socialistas espanhóis, serão, segundo todos os prognósticos, as próximas vítimas de uma situação contra a qual tentaram lutar com medidas de austeridade desde maio de 2010, e que apenas serviram para aumentar o descontentamento popular. Congelamento das pensões, aumento da idade de aposentadoria - dos 65 para os 67 anos - redução de 5% nos salários dos funcionários públicos e aumento fiscal. Tudo isso serviu apenas para dar asas a movimentos como os "indignados", que no domingo se manifestaram mais uma vez em Madri.

Leia também: Indignados se manifestam em Madri a uma semana das eleições

AP
Homem dorme no chão ao passar a noite na Praça da Catalunha durante protesto em Barcelona, Espanha, em 13/11/2011

"A crise econômica dita absolutamente a campanha eleitoral", afirma Vallespín. Segundo o analista, "todo o mundo sabe que entramos em uma cultura de austeridade e que os partidos se esforçam para mostrar o que não vão cortar",

Assim, Rubalcaba insiste em assegurar que, ao contrário do PP, não cortará os serviços sociais como saúde e educação, enquanto Rajoy o acusa de não ter feito nada contra a crise quando estava no governo. A insatisfação com os grandes partidos nacionais, especialmente com o PSOE, a quem a população atribui todos os males da crise, pode acabar beneficiando o bloco comunista Esquerda Unida, que de dois deputados pode aumentar para sete ou onze, dependendo da pesquisa.

Despedida amarga

Zapatero deixa o poder da Espanha ao final de seu segundo mandato, deixando um cenário preocupante de crise. A chegada dele ao poder, em 2004, foi uma surpresa: na ocasião, o PP era o favorito segundo as pesquisas. A escolha de seu nome como líder do PSOE, em 2000, também não era esperada.

A vitória em 2004 foi precedida por três dias de intensa comoção na Espanha pelo atentado a quatro trens em Madri, em 11 de março, que deixou 191 mortos e 1,8 mil feridos. O ato terrorista foi praticado pela rede islâmica Al-Qaeda.

Zapatero chegou ao poder aos 43 anos e sem nunca ter desempenhado cargos importantes. Sua primeira decisão como presidente foi retirar as tropas espanholas do Iraque. Para seu gabinete, escolheu como número dois uma mulher, María Teresa Fernández de la Vega, e também instalou a igualdade de gênero em seu ministério, composto praticamente pelo mesmo número de representantes dos sexos masculino e feminino.

A medida foi o prelúdio de uma série de medidas de ampla repercussão social e que são consideradas seu principal legado: a aprovação da Lei de Igualdade de Gênero e a legalização do casamento homossexual. Sua segunda vitória, em 9 de março de 2008, de novo contra o líder conservador Mariano Rajoy, foi apresentada por Zapatero como "a segunda parte de um projeto de modernização definitiva da Espanha". O segundo capítulo de sua história no poder, no entanto, recebeu uma visita indesejada: a recessão.

Reuters
José Luis Rodrígues Zapatero durante cúpula da UE (24/6)
A crise fez com que a União Europeia cobrasse da Espanha a redução do déficit público do país. Zapatero se viu então obrigado a adotar uma série de cortes sociais impopulares, que ocasionou uma greve geral em setembro de 2010. Seus críticos, liderados pelo PP, acusam o líder de ser um chefe de governo fraco, sem um programa consistente e de ter agravado a situação econômica do país ao negar a existência da crise logo em seu início.

Zapatero também foi questionado por sua postura diante dos movimentos nacionalistas catalães e bascos, e por ter negociado com a organização terrorista ETA. Além disso, setores da esquerda o criticam por ter adotado políticas da direita liberal na reta final de seu segundo mandato.

Outro alvo do PP foi a política externa de Zapatero, que questionou a saída precipitada do Iraque e as relações da Espanha com Cuba e Venezuela. O conturbado segundo mandado do socialista, no entanto, teve em seu final pelo menos uma boa notícia: o anúncio do abandono da violência pelo ETA.

O líder do PSOE nasceu em Valladolid no dia 4 de agosto de 1960, e passou a maior parte de sua vida na cidade vizinha de León, onde estudou Direito e conheceu sua esposa, Sonsoles Espinosa. Zapatero foi professor de Direito Constitucional e se filiou ao PSOE em 1979, aos 19 anos. Em 1986, transformou-se no deputado espanhol mais jovem da história do país.

Pai de duas meninas, Laura e Alba, é torcedor do Barcelona. Recentemente, ele reconheceu que o problema do desemprego tira seu sono: "Me sinto responsável por todas as pessoas sem emprego e que vivem sem esperança", disse o governante em comício realizado na Galícia. Sobre seu futuro, Zapatero afirmou apenas que pretende retornar à cidade onde passou boa parte de sua vida, León.

Com AFP e EFE

    Leia tudo sobre: zapaterorajoyrubalcabaeleiçãoespanhapresidentecrise econômica

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG