Diminuição no nível de emprego faz pobreza aumentar na Argentina

A menor geração de empregos na Argentina está contribuindo para o incremento da pobreza, que atualmente registra níveis quase iguais aos da histórica crise de 2001. Em 2001, o país registrou 11,8 milhões de pobres e agora, segundo dados de três consultorias privadas, a pobreza atinge 11,5 milhões de argentinos entre os cerca de 40 milhões de habitantes do país.

BBC Brasil |

Os estudos foram divulgados na última segunda-feira.

A avaliação de que este quadro é resultado da falta de criação de empregos é do economista Ernesto Kritz, especialista em questões sociais e diretor da SEL Consultores (Sociedade de Estudos Trabalhistas, na sigla em português), um dos institutos que divulgou pesquisa e que tem sede em Buenos Aires.

"Após a forte queda nos índices de pobreza a partir de 2003, o número de pobres subiu entre o ano passado e este ano, devido à alta da inflação. Mas agora o problema é a falta de criação de postos de trabalho e a perspectiva de que a situação possa se agravar no ano que vem", disse Kritz à BBC Brasil.

Assim, o principal fantasma da economia argentina já não seria a inflação, que estaria em desaceleração com a queda no consumo, e sim a falta de criação de postos de trabalho.

Kritz afirma que, no período de expansão da economia (com taxas recordes de 9% ao ano entre 2003-2007), a pobreza, que chegou a afetar mais de 50% da população, despencou a menos da metade.

Ao mesmo tempo, a geração de empregos subiu mais de 6% ao ano naquele período de crescimento econômico, até encontrar um freio a partir do fim do ano passado.

"Agora, no segundo trimestre de 2008, esse número (de crescimento de empregos) já foi de 1%".

Ao mesmo tempo, as principais consultorias privadas do país, que entregam seus dados ao Banco Central, estimam que a economia crescerá 6% este ano, mas registrará entre 2% e 4%, no máximo, em 2009 - o que contribuiria para estancamento ou queda na geração de postos de trabalho.

O total de pobres constatado representa cerca de 32% da população e o dado aparece também em outros dois novos levantamentos publicados nesta segunda-feira no jornal La Nación, a partir de estudos realizados pelo Instituto para o Desenvolvimento Social Argentino (Idesa) e pelo Centro de Economia Regional e Experimental (CERX).

Na Argentina, os dados oficiais do Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos) são questionados por economistas e pela iniciativa privada.

É nesse clima que o governo da presidente Cristina Kirchner tem pedido - mais de uma vez - às empresas de diferentes setores que evitem demissões.

Setor automotivo
Só no setor automotivo, o mais afetado pela crise internacional, estima-se que cerca de 10 mil trabalhadores tiveram a jornada de trabalho reduzida, férias antecipadas ou foram demitidos. Os sindicatos da categoria negociam para tentar recuperar estas vagas.

A Argentina exporta principalmente para o Brasil e para o México e as montadoras argumentam que estão com os pátios lotados, já que as vendas externas caíram.

Segundo a imprensa argentina, a fábrica da Renault no país informou que suspenderá mil trabalhadores durante onze dias e, este mês, a Fiat anunciou que anteciparia o período de recesso anual da maioria de seus 2,2 mil empregados para o início de dezembro.

A General Motors está em negociações com os trabalhadores para tentar evitar demissões, que já tinham sido anunciadas pela empresa. Pelo menos 436 operários chegaram a receber telegramas de demissão, mas retornaram ao trabalho nesta segunda-feira.

Apesar dos dados econômicos e sociais, de acordo com a Cepal, a Argentina é um dos países mais igualitários da América Latina.

Mas, o nível de desconfiança dos argentinos na política e na economia locais costuma ser alto e, aos primeiros sinais de preocupação, eles preferem não comprar, não investir e adiar até projetos de férias.

O governo garante, como disse o chefe de Gabinete de Cristina, Sérgio Massa, que a questão do emprego é "específica" do setor automotivo.

Mas, ainda assim, economistas de diferentes tendências, como Miguel Angel Broda e o ex-ministro da Economia Roberto Lavagna falam na "necessidade de se reverter as atuais expectativas negativas" da população e dos empresários.

Com as más notícias, a presidente Cristina Kirchner defendeu o modelo econômico de seu governo em um discurso na segunda-feira. Cristina também acusou a oposição de "anunciar sempre coisas terríveis", que acabam não ocorrendo.

Segundo ela, há alguns meses era a ameaça de apagão, depois a inflação e agora, afirmou, a aoposição anuncia "catástrofes econômicas".

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