Diário de uma sobrevivente de Auschwitz e Plaszow chega às lojas

Catalina Guerrero. Madri, 20 abr (EFE).- A possibilidade de escrever foi a tábua de salvação à qual se agarrou Ana Novac, uma menina judia, que redigiu um diário intenso e à altura literária que começa justo quando termina o de Ana Frank, no inferno dos campos de extermínio nazistas.

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Ana Novac morreu em 31 de março, aos 80 anos de idade, apenas seis dias antes que "Aquellos maravillosos días de mi juventud" (Destino), o diário que milagrosamente conseguiu escrever em Auschwitz, Plaszow e outros campos de concentração, fosse publicado em espanhol.

Ela morreu de ataque cardíaco em Paris, na cidade que sempre sonhou em viver e onde se instalou em 1968, após uma escala de três anos em Berlim depois de escapar da Europa do Leste.

"Em uma única e mesma existência tive a sorte de presenciar a queda de duas pragas que me pareciam fins iguais: o socialismo nacional e o outro (o soviético)", escreveu Novac no epílogo deste "testemunho" que ofereceu ao mundo.

Nasceu na Transilvânia, (Romênia), mas aos 11 anos despertou para a nacionalidade húngara, "sem ter mudado de lugar, de rua e nem mesmo de camisa". Aos 14, foi deportada para Auschwitz por ser judia. Quando voltou um ano depois, em maio de 1945, pesando apenas 34 quilos e tuberculose, era outra vez romena.

A História, com "H" maiúsculo, dizia, a introduziu em situações que nunca pode interferir, porque "não as tinha escolhido".

Os pontos principais de seu diário, dedicado à "memória" dos seus familiares, foram escritos no campo de extermínio de Auschwitz e no campo de Plaszow, na época sob o comando do sádico comandante Amon Gorth. Conforme Novac, "Hitler não estava interessado em nossos pensamentos, só queria nossa pele".

Essa parte do diário escreveu em Plaszow, sem saber de que se tratava. Novac lembra de Otto, um guarda alemão que surrou uma menina até a morte por ela dormir demais, e depois o retirou desse local a pedido de um comandante intermediário que protegia Novac pela peculiaridade de ser uma jovem escritora.

O restante foi escrito durante sua estadia no hospital ao que chegou em péssimo estado de saúde, após uma segunda estadia em Auschwitz e em outros campos de trabalhos forçados.

Sincera, reconhece que não escreveu para completar a memória da humanidade com o cotidiano em um campo nazista. Mas para se livrar da obsessão de querer ir para casa, para não naufragar na angústia, para ter uma vida "privada" e continuar vivendo.

"Eu, que duvido inclusive das minhas dúvidas, só pedia a Deus que não faltasse comigo", escreveu Novac em seu diário após presenciar em Plaszow como Amon Gorth divertia ao usar uma menina como brinquedo de um cão, que a destroçou.

Se algo a salvou de sucumbir àquele inferno foi sua determinação de "continuar" vida: "por mais estúpida e feia que isso possa resultar, não me vejo sem ela; nem ela sem mim. Inclusive se houvesse outra vida melhor, voltaria a esta".

Novac conta que pode observar e viver: a vida nos campos, seu sofrimento e o de suas companheiras, as relações, marcadas tanto pelo egoísmo quanto pela coragem e a ternura, a fome, o frio, as lágrimas e os risos.

"O riso, já vejo daqui a cara dos civis quando dizem: nunca tinha visto as pessoas divertirem-se tanto quanto no campo. Talvez seja histeria, como nos enterros".

Além das reflexões de uma menina sobre o que significa morrer e sobreviver, tem um estilo direto, limpo, de grande carga emocional e indubitável literário.

"Tomara figurem estas notas entre os testemunhos no dia em que chegar o momento de acertar as contas! Mas embora fora minha única leitora, escreveria apesar de tudo! Teria o mesmo trabalho para usar a palavra certa, a mais exata".

Seu diário foi publicado em 1966 na Hungria, em 1967 na Alemanha, em 1968 na França e mais tarde na Itália, Países Baixos e nos Estados Unidos. Na década de 90, foi reeditada uma versão revisada de seu diário em francês, o que agora chega em espanhol. EFE cat/dm

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