Diálogo para resolver crise em Honduras já começou, diz Zelaya

TEGUCIGALPA - O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, assegurou nesta quinta-feira que o diálogo com os diferentes setores de Honduras para resolver a crise política já começou. Enquanto isso, o governo interino anunciou que aceita receber uma missão integrada pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, e pelo vice-presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, para negociar uma solução.

Redação com agências internacionais |


"Hoje se iniciou (o diálogo) e, claro que sim, é positivo", afirmou Zelaya em declarações ao canal de TV local "36", depois de se reunir com o bispo auxiliar de Tegucigalpa, Juan José Pineda.

Zelaya revelou que na noite de quarta-feira conversou com "um representante do governo de facto", que não quis identificar. "Não avançamos nada devido à posição inflexível que têm (os membros do governo de facto)", mas o encontro foi "positivo", estimou Zelaya.

O presidente deposto revelou que "virão (à embaixada do Brasil) diferentes personalidades do setor privado e dos partidos políticos", mas não deu detalhes sobre estes encontros.

Segundo um comunicado divulgado pela Secretaria de Relações Exteriores de Honduras nesta quinta-feira, por este motivo, o governo do presidente interino Roberto Micheletti decidiu adiar uma reunião com uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA).

"O presidente Roberto Micheletti Bain estará à disposição para receber no futuro, em uma data a ser acertada pela via diplomática, a missão integrada por alguns chanceleres americanos e por funcionários da OEA".

O presidente da Costa Rica, Oscar Arias, que fará parte da nova missão, foi o mediador do chamado Acordo de San José, uma tentativa fracassada de resolver a crise em Honduras no início do último mês de julho.

Em outro comunicado, o regime interino comemorou o anúncio do retorno dos embaixadores dos países da OEA e da União Europeia a Tegucigalpa e disse que isto "significa o reconhecimento expresso do governo de Roberto Micheletti".

"Intromissão"

Também nesta quinta-feira, regime de facto de Honduras acusou o governo brasileiro de "promover" a volta do presidente deposto, Manuel Zelaya, ao país e afirmou que a embaixada do Brasil em Tegucigalpa se transformou "em uma concentração de pessoas armadas que ameaçam a paz e a ordem pública em Honduras".

Em um comunicado divulgado pela Secretaria de Relações Exteriores, o regime interino de Honduras também acusou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "intromissão nos assuntos internos" do país e de saber com antecedência que Zelaya se abrigaria na missão diplomática brasileira em Tegucigalpa.

"Sendo a presença do senhor Zelaya na missão do Brasil em Tegucigalpa um ato promovido e consentido pelo governo do Brasil, recai sobre ele a responsabilidade pela vida e segurança de Zelaya e por danos à integridade física das pessoas e propriedades derivadas", diz o comunicado.

No documento, o governo interino ainda afirma que a embaixada brasileira em Tegucigalpa se transformou em uma "plataforma de propaganda política".

"(O governo brasileiro é responsável) por transformar a missão em uma plataforma de propaganda política e em uma concentração de pessoas armadas que ameaçam a paz e a ordem pública de Honduras".

O documento repete as acusações feitas há dois dias pela vice-chanceler do governo interino, Martha Lorena Alvarado, que, em entrevista à BBC, afirmou que o Brasil seria o responsável caso um "derramamento de sangue" aconteça.

Manifestação

Também nesta quinta-feira, após a suspensão do toque de recolher que vigorava em todo o país, manifestantes pró-governo interino fizeram um protesto na frente da sede das Nações Unidas em Tegucigalpa contra a "ingerência" internacional em Honduras.

AP
Hondurenhos protestam contra Zelaya

Hondurenhos protestam contra Zelaya

O protesto foi convocado pela União Cívica Democrática, grupo que apoia o governo do presidente interino Roberto Micheletti, e teria reunido cerca de 20 mil pessoas.

O grupo teria tentado se aproximar da embaixada brasileira, mas foi impedido por um cordão de isolamento feito por policiais. Os manifestantes teriam seguido então para as proximidades da embaixada dos Estados Unidos.

De acordo com o jornal El Heraldo, durante o protesto, alguns manifestantes gritavam "Lula, Lula, leve essa mula", referindo-se ao presidente brasileiro e a Manuel Zelaya.

Normalidade

Também nesta quinta, o governo interino de Honduras autorizou a reabertura dos aeroportos do país pela primeira vez desde a última segunda-feira, quando Zelaya retornou a Tegucigalpa.

No primeiro momento, apenas os voos locais estavam autorizados, mas, de acordo com o jornal La Prensa, os voos internacionais foram permitidos já na tarde desta quinta-feira. Algumas companhias aéreas estariam planejando retomar as operações na manhã de sexta-feira.

A reabertura dos aeroportos coincide com a suspensão do toque de recolher. Com as medidas, o governo de Roberto Micheletti esboça um retorno do país à normalidade, depois de três dias de turbulências devido à volta de Zelaya.

Desde segunda-feira, de acordo com o governo interino, pelo menos duas pessoas morreram nos conflitos. A primeira morte havia sido confirmada na quarta-feira, e uma segunda foi confirmada nesta quinta.

De acordo com o repórter da BBC Andy Gallacher, que está em Tegucigalpa, no entanto, o número de mortos é contestado por Zelaya, que chegou a afirmar que o número de vítimas fatais é muito maior e pode chegar a dez.

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