Cada vez mais citado pelos países Ocidentais como forma de instaurar a paz no Afeganistão, um acordo com os talibãs continua sendo um elemento ainda muito incerto, com os rebeldes pouco confiantes no governo ou com motivo para interromper os confrontos, alertam analistas.

O presidente afegão Hamid Karzai, candidato a um novo mandato nas eleições de 20 de agosto, fez das negociações com os rebeldes uma das promessas de sua campanha presidencial.

Com os maiores níveis de morte registrados entre os soldados ocidentais desde 2001, no início da guerra contra os talibãs, os governantes destes países apóiam a idéia de um diálogo com os rebeldes considerados mais moderados.

Contudo, observadores ainda se mostram céticos em relação ao início de uma possibilidade de diálogo com o grupo radical. Nos últimos meses, os rebeldes intensificaram os ataques contra o governo de Cabul e seus aliados internacionais, apesar de Karzai ter pedido diversas vezes nos últimos anos para deixarem as armas e negociar.

O presidente afegão voltou a essa questão recentemente, propondo a mediação do rei Abdullah da Arábia Saudita.

Mas Karzai, que é favorito para as eleições, "está cercado por chefes militares e outras pessoas que não gostam dos talibãs, e de quem os talibãs não gostam", explica à AFP Wadir Safi, da Universidade do Afeganistão, duvidando que Karzai seja a pessoa mais indicada para o trabalho.

Para sua coalizão de reeleição, o presidente afegão já apontou como potenciais vice-presidentes dois antigos líderes militares que combateram os talibãs nos anos 90, Mohammad Qasim Fahim e Karim Khalili.

Karzai é aliado também do líder usbeque Abdul Rashid Dostum, acusado de ter matado milhares de combatentes talibãs, inclusive aqueles que teriam sido entregues pelos EUA após a invasão no final de 2001.

Baseados principalmente nas áreas tribais paquistanesas, do lado de uma fronteira bastante porosa, os talibãs redobraram os seus ataques nos últimos anos. Esses confrontos deixaram mais de 2.000 civis mortos em 2008, de acordo com a ONU.

Os rebeldes, que foram considerados praticamente dizimados pelos Ocidentais em 2001, já terem influência sobre mais da metade do país, de acordo com observadores.

Essa situação, apontam os analistas, não coloca o governo em uma posição forte de negociação.

Contudo, "se não houver negociação, os rebeldes poderão continuar durante décadas", diz Safi.

"Os talibãs também não confiam no governo", assinala o analista Waheed Mujde, que trabalhou no governo entre 1996 e 2001, apontando ainda que "as informações não confirmadas que anunciam um início de negociação foram apenas uma tentativa de Karzai de semear a desordem entre os talibãs". Segundo Mujde, qualquer reconciliação irá demorar pelo menos cinco anos.

É necessário que os talibãs, que continuam a operar normalmente a partir do Paquistão, sejam obrigados a negociar através da pressão militar, assinala outro analista, Haroun Mir.

Os rebeldes até agora não se desviaram da linha defendida desde 2001: não há negociação sem que antes as 100.000 tropas estrangeiras no país se retirem.

"Nós nunca falaremos com governo de fantoches de Karzai", disse à AFP um porta-voz dos talibãs, Yousuf Ahmadi, refutando qualquer conflito interno sobre esta questão. "A idéia de um talibã moderado é uma invenção dos invasores estrangeiros", afirma.

Apesar disso, os países ocidentais ainda acreditam em uma solução diplomática.

"A rebelião é resistente e sabe se adaptar, mas tem suas fraquezas. É uma coalizão com grandes interesses, mas superficial", considera um diplomata britânico.

sak/fb

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