Diálogo com China será principal desafio de visita de Obama à Ásia

Um dos principais desafios da primeira viagem oficial do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, à Ásia será reforçar o diálogo com a China em meio à complicada e interdependente relação econômica dos dois países.

BBC Brasil |

Obama, que chegou a Tóquio nesta sexta-feira na primeira escala da visita , vai a Xangai e Pequim, entre os dias 15 e 18 de novembro.

Na passagem pela China, discutirá a taxa cambial fixa entre o dólar e o yuan, que é um dos assuntos mais urgentes na agenda americana.

Com o déficit comercial com a China estimado em cerca de US$ 143,7 bilhões somente nos primeiros nove meses deste ano - e um nível de desemprego superior a 10% da população economicamente ativa -, Obama está sofrendo pressão para mudar a balança comercial com Pequim.

A moeda chinesa tem uma taxa de câmbio fixa de 6,83 yuan por dólar, que favorece as exportações do país asiático para a América.

Câmbio

"Nos últimos dois, três anos os chineses já valorizaram voluntariamente o yuan frente ao dólar em cerca de 20%, mas eles pararam e agora é difícil dizer qual dos lados deve ceder", disse à BBC Brasil Robert Baum, professor especialista em China da Universidade da Califórnia.

A taxa tem sido mantida artificialmente baixa desde julho de 2008, mas nesta semana o governo chinês deu indícios de que vai acolher o apelo de Obama por uma nova taxa de câmbio.

O Banco Central chinês defendeu discretamente uma reavaliação da política cambial e a imprensa estatal afirmou que o país vai "considerar as principais moedas, inclusive o dólar", na hora de reformular a taxa.

Obama deverá argumentar que uma moeda mais valorizada é benéfica ao próprio interesse chinês de aumentar o consumo doméstico, pois um yuan forte significa maior poder de compra à população.

Disputa

Sob o argumento de que o câmbio dá uma vantagem competitiva desleal às exportações chinesas, os Estados Unidos aplicaram impostos protecionistas sobre pneus e tubos de aço desencadeando uma disputa comercial que desagradou aos líderes do Partido Comunista.

A disputa dificulta a posição de Obama, pois Washington depende profundamente da nação parceira, que é atualmente a maior credora da dívida americana, possuindo mais de US$ 800 bilhões em títulos do tesouro.

"Durante essa visita, Obama e o presidente da China, Hun Jintao, vão tentar reforçar, perante o mundo, o apoio mútuo que tem no esforço de reverter a crise mundial", acredita o professor e analista Joseph Cheng, do departamento de Relações Internacionais da Universidade Chinesa de Hong Kong.

A importância que as potências têm no cenário mundial deu origem a especulações sobre a criação de um G2, uma cúpula exclusiva da China e dos Estados Unidos.

Os países ainda não confirmaram a ambição de estabelecer o G2, mas a simbiose entre eles deu origem ao termo "Chimérica", cunhado pelo historiador e professor da Universidede de Harvard Niall Ferguson para resumir a interdependência sino-americana.

Prestígio

No campo político, a visita de Obama também representa a tentativa de reconquistar prestígio na região, que ficou de lado na estratégia internacional de Washington em meio às guerras do Afeganistão e do Iraque.

O presidente americano ainda vai passar por Cingapura, onde participa da cúpula da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec), e Seul.

A crescente influência da China na região é visível no peso que Pequim adquiriu na conferência da Apec.

Em entrevista à BBC, o primeiro ministro da Cingapura, Lee Hsien Loong, disse que a China "foi muito ativa na região, cultivando países, fazendo amizades e influenciando pessoas", enquanto os Estados Unidos estavam ausentes.

Lee afirma esperar ver surgir uma rivalidade "pacífica, construtiva" entre os dois países na arena da Apec.

Outros desafios

Além dos desafios econômicos, a presença militar no Pacífico, ligada à questão de Taiwan - ilha que tem governo próprio desde 1949, mas considerada pelo governo chinês como uma "província rebelde" e parte integrante de seu território - e ao desarmamento nuclear da Coreia do Norte, também deverão entrar na agenda do encontro.

Organizações de direitos humanos têm pressionado o presidente americano para que esse assunto seja discutido com as lideranças chinesas, mas não há garantias até o momento de que Obama tocará num ponto que Pequim prefere evitar.

A ONG de direitos humanos Repórteres Sem Fronteiras chegou a divulgar um comunicado público com dez perguntas que o presidente americano deveria fazer às lideranças comunistas para melhorar a situação da liberdade de imprensa na China. Entre as perguntas, está: "Por que websites como Twitter e Facebook estão bloqueados no país?".

A questão do aquecimento global também deverá ser debatida, mas dentro de uma "proposta de cooperação", afirma Baum.

Juntos, a China e os Estados Unidos são os dois maiores poluidores do mundo e correspondem por 40% de todas as emissões de gás carbônico do planeta.

Em dezembro ambos os países enfrentarão forte pressão da comunidade internacional na reunião da Conferência das Partes (COP-15), em Copenhague, na Dinamarca, quando será discutido um tratado sucessor ao Protocolo de Kyoto e as nações participantes deverão acordar metas no corte de emissões de gases causadores do efeito estufa.

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