Dez mil colombianos aguardam asilo na Venezuela, diz ONU

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) lançou uma campanha para chamar a atenção internacional sobre a situação de milhares de colombianos que aguardam asilo na Venezuela. O que você faria se te dessem 24 horas para abandonar a tua casa, se tivesse que deixar seu emprego e se separar de sua família para salvar a sua vida?, diz o texto da campanha.

BBC Brasil |

Iniciada para recordar o Dia Mundial do Refugiado, comemorado no dia 20, a campanha pretende lidar com a situação de milhares de colombianos que, em conseqüência do conflito armado em seu país, têm buscado melhor sorte do outro lado da fronteira, na Venezuela.

De acordo com a Acnur, quase 10 mil colombianos estão aguardando a certificação de seu status de refugiado por parte do governo venezuelano. Estima-se que nas últimas décadas, mais de 200 mil colombianos tenham imigrado em condição de refugiado ao país vizinho.

"95% desses homens e mulheres colombianos se viram forçados a cruzar a fronteira para evitar uma morte ou o recrutamento forçado de seus filhos devido ao conflito armado", afirma a ACNUR.

Situação
Em geral, as famílias refugiadas são inseridas nas comunidades que vivem nos Estados venezuelanos fronteiriços, onde tentam recomeçar suas vidas, e não em campo de refugiados - o que, segundo o representante da Acnur na Venezuela, John Fredrikson, é positivo, mas não menos traumático.

"Na Venezuela temos sorte de que as pessoas que chegam nessas condições não estão confinados a viver em uma barraca (de acampamento) indefinidamente, mas ainda assim passaram por situações tão desesperadoras como um (refugiado) iraquiano", afirmou.

Fredrikson ressalta que, antes de cruzar a fronteira com a Venezuela, muitas famílias foram submetidas a dois ou três despejos forçados internamente, provocados pela guerrilha de esquerda ou por paramilitares. De acordo com governo colombiano, entre 2,5 a 3 milhões de pessoas foram afetadas pela migração interna forçada.

Segundo a ONU, os refugiados que pedem asilo na Venezuela, em geral, são famílias camponesas despejadas de suas terras ou ativistas políticos e de direitos humanos.

"A maioria dessas pessoas são vistas e tratadas como imigrantes ilegais, o que não surpreende, porque muitas vezes nem eles mesmos conhecem seus direitos", afirma John Fredrikson.

Dificuldades
O processo de certificação ao refugiado, existente desde 2003 com a promulgação da Lei do Refugiado, ainda é insuficiente para atender a demanda. De um total de 10.241 solicitações realizadas de 2002 a 2007, apenas 852 colombianos receberam o status de refugiado.

Ricardo Rincón, presidente da Comissão Nacional do Refugiado (Conare), organismo pertencente à chancelaria da Venezuela, afirma que a demora para documentar os colombianos ocorre devido às dificuldades de identificação das pessoas e das atividades que antes realizavam em seu país.

"Temos que nos certificar que estamos dando asilo a um refugiado e não a um membro de um grupo armado ou a um delinqüente que pretende fugir da Justiça. Esse processo leva tempo", afirma Rincón.

De acordo com ele, ao serem identificados, "os refugiados têm o mesmo direito de um cidadão venezuelano".

Enquanto aguardam sua regularização no país, muitas vezes os colombianos sem documentos enfrentam dificuldades para recomeçar a vida e recorrer à atenção médica ou escolar.

Guerra
O número de refugiados que pediram asilo na Venezuela aumentou nos últimos anos. De acordo com a Acnur, em 2002, 828 colombianos haviam solicitado às autoridades venezuelanas o status de refugiado. Em 2007, o número saltou para 9.398 pessoas.

O aumento coincide com a chegada do presidente colombiano Álvaro Uribe ao poder. Desde 2002, Uribe lidera uma ofensiva militar de combate à guerrilha e ao narcotráfico por meio do Plano Colômbia, projeto de segurança financiado pelos EUA.

Somente neste ano, 728 colombianos já se inscreveram no programa de atenção ao refugiado das Nações Unidas na Venezuela.

A presença dos vizinhos colombianos na Venezuela não é algo novo. De acordo com o Ministério de Relações Exteriores, já foram legalizados mais de 4 milhões de imigrantes colombianos nas últimas décadas.

Em geral, os colombianos trabalham na construção civil, na prestação de serviços ou se convertem em vendedores informais.

No domingo, o presidente venezuelano Hugo Chávez pediu às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que abandonem a luta armada iniciada há mais de 40 anos e libertem todos os seus reféns em seu poder.

Leia mais sobre: asilo

    Leia tudo sobre: colômbiavenezuela

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG