Desvalorização atinge em cheio venezuelanos mais pobres

Nuria Noguera tem 59 anos. Trabalhou a vida inteira, ora como secretária, ora como caixa de supermercado. Desde o mês passado, no entanto, Nuria é mais uma entre as 3.833 pessoas que perderam o emprego desde o início do ano e vagam pelas ruas de Caracas exibindo em cartazes seu descontentamento com o governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Gustavo Gantois, enviado especial a Caracas |

Gustavo Gantois
A venezuelana Nuria

A venezuelana Nuria

A demissão de Nuria está diretamente ligada ao momento econômico pelo qual passa a Venezuela. Ex-empregada da rede Éxito, ela foi parar nas ruas depois que o governo decidiu expropriar as lojas da empresa francesa por causa dos reajustes feitos após a desvalorização do bolívar, a moeda local. Nuria foi dispensada pela nova gestão estatal.

"Não posso reclamar demais porque há outras pessoas que estão em situação pior por aí, como naquela desgraça no Haiti, não é mesmo?", indaga com um simpático sorriso no rosto. "Mas para alguém que sempre conseguiu sustentar a família inteira, é muito difícil ser arrancada do emprego de anos porque um presidente eleito por nós não conseguiu cumprir seu papel."

Hoje, Nuria sobrevive com uma pensão do governo no valor de Bf. 800, o equivalente a cerca de R$ 313. Antes, seu salário era de Bf. 2.000 - ou R$ 784. A sigla da moeda quer dizer, paradoxalmente, bolívar forte. "Como o nosso querido presidente acha que eu consigo viver com isso?", questiona. "Sempre gostei de Chávez, mas há algumas coisas que ele tem feito que só estão levando nosso povo à falência."

Inflação

Uma visita rápida às lojas e restaurantes da capital venezuelana comprova a tese de Nuria. Os preços dispararam enquanto a renda da população não acompanhou. E nem o exército mobilizado por Chávez para conter a escalada inflacionária impede os reajustes.

"Tentamos não exagerar para não sermos fechados", afirma Katiuska Hernández, gerente da Farmatodo, maior rede de farmácias de Caracas. "A maioria dos nossos produtos é importada, e com o dólar valendo Bf. 4,30 fica impossível não repassar algo. Ou é isso ou fechamos."

AP
Manifestantes protestam contra expropriação da rede Exito

Manifestantes protestam contra expropriação da rede Éxito

A realidade vale até para o serviço público de transporte. O preço do bilhete de metrô, que hoje vale Bf. 1,5, custava 25% menos há um mês. O resultado disso são ônibus velhos e lotados rodando pela cidade, dividindo espaço num trânsito caótico com táxis ainda piores e carros novos, pertencentes à reduzida elite.

Petróleo

O trânsito, aliás, é a maior prova do desvirtuamento econômico da Venezuela. Com a gasolina subsidiada, que custa no máximo Bf. 0,70 o litro (ou R$ 0,27), Caracas vive sob uma poluidora mistura de fuligem e gás carbônico. Aqui tudo gira em torno do petróleo.

Não por menos, o único setor que acabou ganhando com a desvalorização da moeda foi esse. "Historicamente, as desvalorizações na Venezuela são feitas para melhorar a situação fiscal do país, e essa não é uma exceção", avalia Asdrúbal Oliveros, economista da consultoria Ecoanalítica.

"Por causa da estrutura dos ingressos fiscais, em que boa parte deles são em dólares vindos do petróleo, uma desvalorização dessas aumenta a quantidades de bolívares por cada petrodólar."

Pelos cálculos do economista, o governo deverá ter um adicional de US$ 25 bilhões. Essa dinheirama virá pela mudança cambial promovida na desvalorização. O dólar para a população em geral e empresas que importam produtos não essenciais custa Bf. 4,30. Mas para o setor petrolífero ele custa Bf. 2,15.

AP
Soldados fiscalizam preços de mercado para impedir reajustes

Soldados fiscalizam preços de mercado para impedir reajustes

Isso significa que os dólares que entram pela PDVSA, a estatal de petróleo, valem muito mais que para o restante das empresas. E como os gastos com funcionários da PDVSA e com os programas sociais com os quais a estatal contribui são calculados na moeda local, os custos acabam sendo menores.

Para Nuria Noguera isso é difícil de compreender. "Se este é um governo socialista, porque ele tem de privilegiar tão poucos?", pergunta a velha senhorinha. É uma questão que permeia a todos os venezuelanos, mas que ninguém, e muito menos Chávez, ainda tratou de esclarecer.

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