Destruição causada por ciclone aumenta descontentamento com regime de Mianmar

Ángel Escamis Yangun (Mianmar), 6 mai (EFE).- As conseqüências do ciclone Nargis, que deixou pelo menos 15 mil mortos e 30 mil desaparecidos em Mianmar (antiga Birmânia), aumentaram ainda mais o descontentamento popular com a Junta Militar que governa o país, acusada de não dar a assistência necessária às vítimas.

EFE |

As Nações Unidas, que receberam na última segunda a autorização do regime militar birmanês para distribuir ajuda humanitária, calculam que milhares de pessoas ficaram sem suas casas. Algumas ONGs chegam a afirmar que o número de desabrigados pode chegar a mais de um milhão.

O ministro de Assuntos Exteriores da Tailândia, Noppadol Pattama, disse hoje em Bangcoc que as informações passadas pelo embaixador birmanês são de que o número de desaparecidos passa de 30 mil pessoas.

Desde o último sábado, cinco milhões de pessoas que moram em Yangun, principal cidade e ex-capital do país, não têm água potável nem eletricidade.

Na região do delta do rio Irrawaddy, quase toda arrasada, centenas de milhares de birmaneses que perderam suas casas e colheitas vagam pelas ruas revirando escombros.

As estradas e as linhas ferroviárias que passam por Yangun estão bloqueadas por causa das inundações.

"Hoje também não sairá nenhum trem para o sul, a situação é pior após a forte tempestade que caiu ontem", declarou à Agência Efe Tin Htway, que trabalha na estação de trem central de Yangun.

Em meio ao desastre, os jornais birmaneses, todos controlados pelo Estado, informaram que os generais visitaram de helicóptero a região do delta do rio Irrawaddy e prometeram dar total assistência aos desabrigados, porém não afirmam que o Governo aceitou receber ajuda humanitária internacional.

A Junta Militar aceitou ajuda externa após a reunião realizada ontem na sede das Nações Unidas em Yangun, que contou com a presença de algumas ONGs que têm autorização para trabalhar em Mianmar, como os Médicos Sem Fronteiras e a australiana World Vision.

Entre os cidadãos de Yangun, que sofrem em silêncio e de forma paciente, há incerteza, descontentamento, além de um certo medo do regime.

"É um mutismo imposto com as armas, somos como os escravos da Junta", disse um birmanês de 37 anos que participou das grandes manifestações contra o regime em setembro do ano passado.

Após reprimir os protestos incentivados pelos monges budistas, que apoiavam os que denunciavam o aumento no preço dos combustíveis, o regime admitiu que 15 pessoas morreram durante estas manifestações.

Porém, oito meses depois da campanha de repressão, um movimento formado por veteranos ativistas políticos afirma que 138 pessoas foram assassinadas pelas forças de segurança.

A destruição causada pelo ciclone "Nargis" chega em um momento nada propício para a Junta Militar, que há várias semanas pressiona os birmaneses a votarem em um plebiscito, convocado para 10 de maio, que decide sobre a aceitação de um texto constitucional que garante a permanência do regime no poder.

As autoridades anunciaram hoje a suspensão do plebiscito nas regiões afetadas pelo ciclone onde está cerca da metade dos 53 milhões de birmaneses, porém manteve a convocação no resto do país.

Moradores do bairro de Yangun, que abriga o pagode (templo) de Shwedagon, disseram à Efe que desde o mês passado diversos grupos de até cem pessoas, entre elas religiosos, realizam protestos esporádicos na região.

"Aparecem de repente, em pequenos grupos, e entre eles sempre há mais de uma dezena de monges", declarou um morador de 73 anos que por motivos de segurança pediu para não ser identificado.

As autoridades birmanesas mantêm proibida a entrada dos monges em Shwedagon desde que o histórico templo se transformou em uma espécie de imã de manifestações em setembro.

Também aconteceram passeatas no bairro de Tamwe por onde as autoridades locais caminham à paisana e, aparentemente por distração, deixam aparecer as armas que carregam junto à cintura.

Mianmar é governada pelos militares desde 1962 e não realiza eleições democráticas desde 1990, quando o partido oficial foi esmagado pela coalizão da opositora Aung San Suu Kyi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz. Os resultados deste pleito não foram reconhecidos pelo regime. EFE mfr/rr/fal

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