Desinteresse marca plebiscito em áreas de Mianmar arrasadas por ciclone

Juan Campos Yangun (Mianmar), 24 mai (EFE). - A Junta Militar de Mianmar (antiga Birmânia), que se comprometeu com as Nações Unidas a permitir a entrada de ajuda humanitária internacional após a passagem do ciclone Nargis no início do mês, realizou hoje, em Yangun e na região sul do país, a segunda fase de seu plebiscito constitucional.

EFE |

Na prática, a minuta votada neste sábado garante a anistia dos generais do regime e cimenta o domínio dos militares no país, que estão no poder há quase 50 anos.

A realização do plebiscito em Yangun e na devastada região do delta do rio Irrawaddy chamou a atenção pelo fato de aproximadamente 2,5 milhões de sobreviventes do ciclone "Nargis" ainda não terem recebido ou estarem recebendo ocasionalmente ajuda das autoridades.

A televisão estatal mostrou imagens de desabrigados em abrigos recebendo das mãos de funcionários as cédulas para votar no plebiscito da Constituição, que o Governo militar afirma ser a espinha dorsal das eleições democráticas previstas para 2010.

"As vítimas do ciclone não têm interesse algum em votar. Elas não entendem a Constituição e sua grande preocupação é viver. Mas há dias os funcionários vão às aldeias lembrando os moradores que eles têm que votar 'sim'", disse uma jovem nos arredores de Yangun.

Nas seções eleitorais de Yangun, a participação dos eleitores foi pequena durante todo o dia, enquanto era impossível saber o que acontecia na região do delta, já que os acessos continuavam bloqueados por policiais e soldados.

Milhares de pessoas, entre elas a Nobel da Paz de 1991 e líder do movimento pela democracia, Aung San Suu Kyi, mantida em prisão domiciliar, depositaram seu voto um dia antes nas urnas que foram levadas de casa em casa por equipes móveis que percorreram Yangun e as aldeias do delta.

Fontes da oposição, certa de que a votação não terá influência no resultado final do plebiscito, disseram à Agência Efe que, após a aprovação da Carta Magna, a primeira medida do Governo será declarar ilegal a Liga Nacional pela Democracia, liderada por Suu Kyi e único partido que resiste à pressão dos militares.

Para impedir manifestações da população por causa do mal-estar gerado pelo contínuo aumento dos preços dos alimentos básicos, as forças de segurança tomaram as ruas de Yangun.

Assim que começou o dia, milhares de policiais e soldados passaram a patrulhar praticamente cada esquina de Yangun, onde aconteceu a maior mobilização de tropas desde as manifestações a favor da democracia em setembro do ano passado.

Armados com cassetetes, escudos e bombas de gás lacrimogêneo, soldados do batalhão de choque continuam vigiando principalmente os locais em que monges, estudantes e outros ativistas possam organizar pequenos protestos contra o regime do chefe da Junta Militar, general Than Shwe.

Dezenas de caminhões militares estão em torno dos templos de Shwedagon e Sule, ambos no centro de Yangun.

"Eles estão com muito medo desde o que aconteceu em setembro", explicou o abade de um mosteiro nos arredores de Yangun.

A votação de hoje aconteceu um dia depois de o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ter arrancado do chefe da Junta Militar o compromisso de suspender as restrições à entrada no delta dos voluntários estrangeiros e permitir a chegada no país da ajuda humanitária oferecida pela comunidade internacional.

Nas outras regiões de Mianmar em que o ciclone não causou estragos, a votação aconteceu no dia 10.

Na primeira fase do plebiscito, a minuta constitucional foi aprovada por 92,4% dos votos válidos, segundo a Junta Militar. EFE csm/wr/sc

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